Lula chega para cúpula do G-7 na França, onde esperar falar com Trump sobre tarifaço Presidente desembarca nos Alpes Franceses nesta segunda-feira após aceitar o convite de Emmanuel Macron para participar da reunião do Grupo dos 7.
Gerando resumo
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi convidado em fevereiro para a cúpula do G-7, grupo das sete maiores economias do mundo.
Mas só no início deste mês ele confirmou sua presença dizendo “agora eu vou”.
O timing é oportuno.
O brasileiro espera esbarrar com o americano Donald Trump e quem sabe com Ursula von der Leyen para resolver os impasses dos Estados Unidos e da União Europeia com o Brasil.
O Brasil não é membro do G-7 e participa do encontro que ocorre entre os dias 15 e 17 de junho em Évian-les-Bains, na França, como convidado.
Nesta condição, o País não tem poder de voto ou de negociação, pode apenas fazer apontamentos nos documentos finais.
O fórum internacional será a nova etapa no uso da política externa dentro de um contexto eleitoral, uma vez que tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro (PL) recorrem à fotos com Trump para projetar importância.
💥 Impacto e Consequências
O que mais vai importar para a delegação brasileira serão os encontros bilaterais que devem ocorrer em paralelo à cúpula e as trombadas de corredor.
Segundo o Itamaraty, duas reuniões já estão previstas, com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, e o presidente da França, Emmanuel Macron, que é o anfitrião da cúpula.
Mas não vê sentido em um novo encontro bilateral agora com Trump depois do último há um mês.
“Nesses grandes encontros multilaterais, existe a oportunidade para falar com quem você quer falar, nesses corredores e cafezinhos, e a oportunidade de encontrar outros países que de repente podem abrir a possibilidade de outras negociações”, explica Cristina Pecequilo, professora de Política Internacional na Unifesp.
Também é possível uma reunião bilateral com o presidente do Egito, Abdel Fattah el-Sisi.
Lula pretende usar encontro para rever tarifaço
“Eu nem ia no G-7, agora eu vou.
É preciso alguém tentar colocar ordem na casa”, afirmou Lula quando confirmou a sua participação na semana passada.
A decisão foi tomada depois que o governo dos Estados Unidos propôs um novo tarifaço ao Brasil.
Depois de já ter se reunido com Trump em Washington em maio, onde o Brasil conseguiu uma prorrogação de novas tarifas, Lula espera conseguir de novo abordar o tema com Trump.
O americano confirmou sua ida aos Alpes Franceses, mas existe a expectativa de que ele participe apenas da abertura da cúpula, como ocorreu com o encontro do ano passado no Canadá.
A princípio, não havia uma percepção de que seria interessante ir nessa reunião, porque não seriam discutidos grandes temas para o Brasil.
O mundo está em guerra, então seria um pouco mais do mesmo.
A equação muda com o novo tarifaço e a identificação dos grupos crime organizado como terroristas.
A partir daí o Brasil sente a necessidade de um posicionamento mais claro dentro dessas arenas internacionais.
Cristina Pecequilo, professora de Política Internacional na Unifesp Em 2 de junho, o Escritório Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) propôs uma tarifa geral de 25% sobre produtos brasileiros por supostas práticas desleais na relação bilateral, e mais 12,5% por não proibir e coibir efetivamente a importação de produtos feitos com regime de trabalho forçado.
Com Ursula, a pauta é o bloqueio europeu à carne brasileira Outro encontro muito oportuno nesta cúpula seria com a presidente da Comissão Europeia depois que a União Europeia baniu a carne brasileira do bloco.
Com Ursula von der Leyen, a diplomacia brasileira tenta organizar uma bilateral, mas ainda sem confirmação.
Em 12 de maio, onze dias após a entrada em vigor do acordo de livre comércio da UE-Mercosul, o bloco europeu anunciou a decisão de excluir completamente os produtos brasileiros de origem animal de seu mercado.
A medida entrará em vigor em 3 de setembro e foi aprovada após votação dos 27 países de forma unânime.
Novas taxas de Trump afetam Flávio Bolsonaro, mas no futuro podem prejudicar Lula Emauel Bomfim e Ricardo Corrêa analisam a repercussão das novas tarifas impostas aos produtos brasileiros pelo governo de Donald Trump.
Crédito: TV Estadão
“Nós ficamos um pouco surpresos pela maneira como foi”, admitiu o Secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, embaixador Philip Fox-Drummond Gough.
Von der Leyen tem pouco poder de mudar a situação rapidamente, mas serve de canal para levar as manifestações brasileiras aos países do bloco.
“Um encontro com Ursula von der Leyen seria importante em função dessa questão da carne e dos entraves que ainda existem nessas negociações do Mercosul com a União Europeia”, afirma Guilherme Casarões, professor da FGV.
O encontro, acrescenta o professor, também ajudaria a recolocar o Brasil como liderança do Mercosul.
Pautas alimentam o discurso eleitoral de “defesa da soberania” De qualquer forma, todas essas pautas alimentam a bandeira eleitoral da “defesa da soberania”, que tem servido de contra-ataque do governo contra a família Bolsonaro desde o ano passado.
“Ano eleitoral tipicamente não é um ano em que o presidente viaja muito.
Porém, nessa eleição a política externa colou como um tema eleitoral e não há perspectiva de deixar de sê-lo até outubro”, aponta Casarões.
“Existe uma batalha em curso narrativa entre o Lula e Flávio Bolsonaro com relação aos Estados Unidos.
[Essa viagem] é uma maneira que o Lula encontra de confirmar ou de consolidar uma narrativa favorável depois de uma quase perda do controle da narrativa quando Flávio veio a Washington”, continua.
Em julho do ano passado, Trump enviou uma carta a Lula na qual anunciava tarifas de 50% em cima do Brasil, a maior imposição daquele momento.
Os dois, então, se esbarraram nos corredores da Assembleia-Geral da ONU onde “rolou uma química”, segundo Trump.
E novamente na Malásia, durante cúpula da Asean.
Lula finalmente viajou à Washington em maio.
Depois que Lula obteve sua foto sorridente com Trump, foi a vez de Flávio Bolsonaro ir à Casa Branca no fim de maio para conseguir ele próprio uma fotografia.
📊 Informação Complementar
A viagem coincidiu com o dia em que os EUA classificaram PCC e CV como organizações terroristas, algo que o governo tentava evitar e a oposição queria colar nas costas do Planalto.
A disputa eleitoral está muito centrada nessa história de reconhecimento internacional e reputação.
Flávio veio com essa ideia de que só o Bolsonaro pode resolver a relação com os EUA depois do desastre que foi o governo Lula.
Enquanto Lula consolida essa ideia de que se trata de um líder respeitado no mundo.
Com isso, cresce o abismo com relação ao Flávio, que além de não ser exatamente uma figura experiente do ponto de vista Executivo, é uma pessoa cujas estratégias em política externa até aqui tem se mostrado bem limitadas.
Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas Cúpula do G-7 vai assinar sete documentos, incluindo um sobre mineirais críticos Este ano há a negociação para assinatura de sete documentos: – Parcerias internacionais para o desenvolvimento – Crescimento econômico equilibrado – Proteção online de menores – Combate ao narcotráfico – Luta contra o câncer – Combate ao contrabando de migrantes – Minerais críticos Os dois últimos são vistos como os com mais pontos de divergências entre os países.
O Brasil não participa das negociações e assinaturas.
Assim como os demais convidados, Índia, Quênia, Coreia do Sul, Ucrânia, Catar, Emirados Árabes Unidos e Egito, o País só pode fazer apontamentos e espera poder contribuir nos dois primeiros temas e sobre minerais críticos.
“Do ponto de vista do Brasil, o mais importante é ter um olhar de desenvolvimento nessa questão de minerais críticos e fazer agregação de valor no próprio local de extração”, disse o embaixador Philip Fox-Drummond Gough.
Lula deve discursar na cúpula na terça-feira à tarde do horário local (manhã do Brasil) e na quarta pela manhã (madrugada do Brasil).
Esta é a décima vez que Lula participa do encontro do Grupo dos 7, composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido.
Embora se autodenomine “as sete maiores economias do mundo”, o grupo é pouco representativo deste realidade, já que não conta com China e Índia, outros gigantes econômicos.
A Rússia fazia parte do grupo quando ele se chamava G-8, mas foi expulsa em 2014 após a anexação ilegal da Crimeia.
Com o tempo, o grupo foi perdendo a sua relevância pela ausência de representatividade.
O G-20 passou a ser o fórum de maior relevância por reunir outras economias que cresceram ao longo das últimas décadas.
O fato de os Estados Unidos serem governados por um presidente que não acredita em multilateralismo também contribuiu para esta decadência.
Mas o surgimento de uma rivalidade crescente entre Ocidente e Oriente hoje pode estar dando novos significados ao grupo.
“O mundo estava indo para um caminho talvez multipolar e agora a gente está vendo uma dinâmica que é bipolar, mas não é exatamente entre dois polos perfeitos, mas é entre uma ideia de Ocidente muito tensionada e uma ideia de Oriente de China e Rússia.
Nessa configuração do mundo, o G-7 se torna o caminho para o Ocidente voltar a se reorganizar e pelo menos tentar voltar a controlar alguns dos elementos dessa pauta internacional”, diz Casarões./Com Felipe Frazão
Fonte: Estadão
15/06/2026 12:48









