A final da Liga Conferência desta quarta-feira pode coroar uma história peculiar do futebol espanhol.
O Rayo Vallecano, da periferia de Madri, pode alcançar o maior feito da sua trajetória centenária.
Fundado em 1924, o clube tenta a sua maior conquista apenas em sua segunda participação em um torneio continental.
Estável na primeira divisão espanhola desde a temporada 2018/19, o Rayo vive sua maior sequência na elite do futebol do país, e conquistou o oitavo lugar de La Liga nos dois últimos anos, seu melhor resultado na história do campeonato.
O Rayo Vallecano enfrenta o Crystal Palace em Leipzig, na Alemanha, às 16h (de Brasília) desta quarta-feira.
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Além disso, a final contra o Palace será a primeira decisão continental da equipe, que vem alcançando seus maiores feitos na gestão de Raúl Martín Presa, que comprou o clube em 2011.
Se engana, no entanto, quem pensa que a torcida do Rayo considere o bom momento um mérito de Martín Presa.
"Presa, vá embora já": torcida do Rayo protesta contra o dono do clube — Foto: Angel Martinez/Getty Images
Apesar dos resultados em campo, o empresário é duramente criticado pela torcida do clube.
Além de já ter falado abertamente sobre o desejo de levar o Rayo Vallecano para outro local de Madrid e construir um estádio mais moderno do que o do clube (que fica em Vallecas, na periferia da capital espanhola), Martín Presa é acusado de sabotar a própria instituição.
A torcida critica o abandono do estádio em Vallecas, bem como a falta de investimentos nas instalações do clube e nas categorias de base.
O ápice da má relação se deu em fevereiro desse ano, quando o Rayo precisou mandar uma partida contra o Atlético de Madrid em Leganés, devido às péssimas condições do gramado.
Outro ponto de críticas a Martín Presa é o fato de o Rayo Vallecano ser um dos únicos clubes das grandes ligas da Europa que não vende ingressos de maneira digital, o que constantemente gera filas enormes em Vallecas para jogos de maior apelo, como o da final da Liga Conferência diante do Crystal Palace.
Fila de torcedores do Rayo Vallecano para comprar ingressos para a final contra o Crystal Palace — Foto: Phil Kitromilides Um clube progressista O Rayo faz questão de se destacar como um clube progressista, com posicionamentos que vão muito além do futebol.
O clube tem origens na comunidade operária de Vallecas, ao sul de Madri, e foi fundado em 1924.
Mais especificamente por um grupo de jovens que se encontravam nas ruas e decidiram criar o próprio clube.
A história do time começa de maneira humilde: o primeiro presidente do clube foi um guarda civil (Julián Huerta Priego), que chegou a se dividir entre as duas funções e foi substituído dois anos depois por um dono de um pequeno comércio de alvenaria (José Montoya Arribas).
Faixas e manifestações são comuns nos arredores e nas arquibancadas do estádio Estádio Teresa Rivero, com dizeres antirracista, antifascistas e contra a mercantilização do futebol.
Aliás, o nome da casa do Rayo já é uma prova do seu protagonismo em pautas sociais.
Teresa Rivero foi presidente do clube de 1994 a 2011, como sucessora do seu esposo, José María Ruiz-Mateos.
Ela foi a primeira mulher a ocupar tal cargo no futebol profissional espanhol.
Torcida do Rayo Vallecano na semifinal da Liga Conferência — Foto: REUTERS As principais demonstrações da véia militante do Rayo Vallecano aparecem através dos Bukaneros, a principal torcida organizada da equipe e que existe há mais de 30 anos.
Em 2017, por exemplo, o Rayo ficou perto de contratar o atacante ucraniano Roman Zozulya, mas foi impedido pela força da organizada.
O jogador era acusado de ter envolvimento com movimentos da extrema direita e por isso sofreu com uma grande pressão dos torcedores, que se manifestaram contra sua chegada.
Outro momento simbólico aconteceu há cinco anos.
O líder do partido de extrema-direita VOX, Santiago Abascal, foi ao estádio do Rayo para acompanhar um jogo, a convite do presidente do clube, Raúl Martin Presa.
O político foi hostilizado pelos Bukaneros, que fizeram uma “desinfestação” geral no estádio na manhã seguinte para destacar que o VOX não era bem-vindo.
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Torcida do Rayo Vallecano protesta contra membros do partido VOX — Foto: Marcos del Mazo/LightRocket via Getty Images
Uma representação importante da identidade do clube se apresenta na história de Wilfred Agbonavbare, ex-goleiro do Rayo.
O nigeriano atuou pela equipe na década de 1990 e enfrentou diversos ataques racistas por ser um dos únicos negros e africanos da posição na elite do futebol espanhol na época.
Wilfred se tornou símbolo da resistência do Vallecano e da torcida, sendo destaque nas bandeiras e nas campanhas antiracismo.
Em 2015, após sua morte, o clube eternizou a idolatria pelo goleiro com um grande mural na entrada do estádio.
Além disso, as paredes da arena carregam os dizeres “Ama al Rayo, odia el racismo” – “Ama o Rayo, odeia o racismo” em português.
Do inferno ao céu?
22 anos depois de amargar um rebaixamento para a terceira divisão do futebol espanhol, o Rayo Vallecano vive uma temporada mágica.
Classificado em quinto lugar na fase de liga, o time despachou adversários da Turquia, da Grécia e da França no mata-mata para finalmente chegar à decisão desta quarta-feira, contra o Crystal Palace.
Um dos pilares para o sucesso é a manutenção de um estilo de jogo.
Técnico da equipe, Iñigo Pérez tem apenas 38 anos.
Ele assumiu a equipe em fevereiro de 2024, meses depois do clube perder Andoni Iraola, que vinha de excelente trabalho nas temporadas anteriores.
Iraola repetiu o sucesso no novo clube, o Bournemouth, da Inglaterra, classificando o time para a Liga Europa do próximo ano.
O brasileiro Alemão é um dos destaques do atual time do Rayo Vallecano.
Ex-Internacional, o atacante tem quatro gols no mata-mata, todos fundamentais para a campanha: dois na vitória por 3 a 1 sobre o Samsunspor nas oitavas de final e os dois gols dos triunfos por 1 a 0 sobre o Strasbourg na semifinal.
Alemão centroavante Rayo Vallecano Inter — Foto: Divulgação, Rayo Vallecano
A final colocará o Rayo Vallecano diante de outra realidade financeira.
Integrante da Premier League, o Crystal Palace conta com uma situação econômica totalmente diferente das finanças modestas do Rayo.
A critério de comparação, enquanto os espanhóis gastaram cerca de 68 milhões de euros (R$ 400 milhões) em contratações na soma das últimas dez temporadas, o Crystal Palace investiu 150 milhões de euros (R$ 880 milhões) apenas para a temporada 2025/26.
O campeão da Liga Conferência será definido a partir das 16h (de Brasília).
Crystal Palace e Rayo Vallecano se enfrentam em Leipzig, na Alemanha.
O vencedor conquistará o primeiro título europeu da sua história e garante vaga na próxima edição da Liga Europa.
Fonte: Globo Esporte
27/05/2026 10:33











