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‘Se tem populismo hoje, é para classe média’, diz diretor da Eurasia sobre fim da 6×1

29 de maio de 2026
in ENTRETENIMENTO, POLÍTICA
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Redução da jornada cabe na vantagem do incumbente
Para Eurasia, medida não muda perspectivas eleitorais e Lula continua com leve vantagem de ser reeleito.

Crédito: Estadão Gerando resumo O fim da jornada 6×1, aprovado na Câmara dos Deputados na noite de quarta, 27, faz parte do “pacote de bondades” já esperado de um candidato que está no poder (como acontece em todos os países) e não muda os ponteiros da probabilidade de reeleição de Lula, nas previsões da Eurasia, maior consultoria de risco político do mundo.

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“Temos uma eleição estruturalmente competitiva, com o incumbente com uma ligeira vantagem, mas com muitas vulnerabilidades que deixam essa eleição difícil de cravar”, diz Christopher Garman, diretor executivo para Américas do Eurasia Group.

Assim, a consultoria manteve a probabilidade de reeleição de Lula em 55%.

O que a mudança na jornada de trabalho trouxe, porém, são indicativos de como será um novo eventual governo Lula, diz Garman.

“Há quatro anos, Bolsonaro aumentou o auxílio emergencial e o Bolsa Família às vésperas da eleição porque esse era o segmento em que ele estava com dificuldades", diz ele.

“Neste ciclo, o Planalto tem sofrido com o eleitor de classe média.” Por isso, tantas medidas voltadas a essa faixa do eleitorado.

Ao contrário das medidas populistas para a classe mais baixa, porém, as voltadas ao trabalhador CLT terão custos que recairão sobre a classe produtiva, e não sobre o orçamento do governo, como Garman explica na entrevista a seguir.

O fim da escala 6×1 estava entre as bondades esperadas dos governantes que disputam reeleições?

Isso muda o cenário?

Antes mesmo do vazamento dos áudios do (Daniel) Vorcaro com o Flávio (Bolsonaro, nos quais o pré-candidato à presidência pelo PL cobra dinheiro do então presidente do Banco Master), a gente dizia que o Lula é o favorito nesta disputa.

É difícil cravar (quem vencerá), tanto que estamos com uma probabilidade de vitória do Lula de 55%.

Uma das razões da aposta na vantagem eleitoral do presidente é que, nos cinco a seis meses antes da eleição, geralmente a aprovação de governantes sobe uns quatro ou cinco pontos porcentuais.

Esse é o histórico.

Nas últimas quatro eleições presidenciais no Brasil, quando o incumbente concorre à reeleição, numa disputa binária, a aprovação subiu seis pontos.

Quando o Lula estava com 44% das intenções de voto um mês atrás, empatado com o Flávio nas pesquisas, seria esperado que o Lula subisse uns três, quatro pontos porcentuais antes da eleição.

Por qual motivo?

O incumbente tem a máquina na mão e dá essas bondades.

Além disso, numa campanha, o governante vende o peixe, diz tudo o que entregou.

Esse é o padrão histórico global e não é diferente no Brasil.

Adicione o que ele aprovou no ano passado e o que está implementando agora ao Desenrola 2.0, à jornada de trabalho e (ao fim da taxa das) blusinhas, e a nossa aposta era de que ele subiria mais (nas pesquisas).

A redução da jornada de trabalho cabe nesse padrão, mas com um ponto muito interessante sobre o tipo de bondade que o governo está concedendo neste ciclo, que é diferente do que a gente viu quatro anos atrás.

Como assim?

Há quatro anos, o que o Bolsonaro fez às vésperas da eleição foi aumentar o auxílio emergencial e o Bolsa Família, porque esse era o segmento que ele estava com dificuldades.

Nesse ciclo, o Planalto tem sofrido com o eleitor de classe média.

O pessoal que ganha de dois a cinco salários mínimos é quem mais sofreu com o custo de vida.

É grupo eleitoral que está com ressentimento do aumento do Bolsa Família e começa a associar essas transferências de renda a desincentivo ao trabalho, à vagabundagem, como se vê muito nas redes sociais.

Todas as bondades estão nesse segmento: a isenção de IR (imposto de renda) para quem ganha até R$ 5 mil, o Desenrola, a redução de jornada.

É o pessoal da CLT de renda mais baixa.

Se tem populismo hoje, é o populismo para a classe média, diferentemente do que foi visto no passado.

Isso nos mostra que não só a estratégia do PT mudou, mas também nos dá uma pista de como pensar em governo, se o Lula for reeleito.

Porque, se Lula for reeleito, esse populismo para a classe média deve continuar.

O que isso significa?

Quando se faz bondade para a classe média, é preciso buscar como financiar isso.

O risco é que (a conta) recaia mais sobre o setor produtivo, que pagou um preço pela isenção do IR com a taxação dos dividendos.

Agora, com a redução da jornada, empresas de alguns setores terão de pagar o mesmo valor por menos horas trabalhadas.

Há aqui um discurso de justiça social: vamos taxar os ricos, mas as bondades vão mais para esses segmentos da classe média.

A redução da jornada faz parte de pacote mais amplo, que geralmente leva à aprovação do incumbente, e o tipo de bondade diz algo sobre a estratégia política do Palácio do Planalto e também nos diz algo sobre a estratégia, se Lula for reeleito.

📊 Informação Complementar

O curto período de implementação da jornada 5×2 terá impacto inflacionário a ponto de influenciar as eleições?

É muito difícil.

Ainda é preciso ser aprovada no Senado para começar a redução da jornada, o que talvez aconteça a alguns meses da eleição.

O impacto de mais custo a ser repassado para o consumidor sempre tem uma defasagem.

Não sou economista, mas me parece que esse impacto não acontecerá tão cedo.

É algo que virá depois das eleições.

O governo tem mais bônus do que ônus.

Saiba mais: Fim da escala 6×1: veja quais são os próximos passos da proposta no Congresso Lula tem 4 vantagens e 4 desvantagens na corrida presidencial, diz fundador da Quaest; veja quais Fim da 6×1: Após reunião com Alcolumbre, entidades produtivas defendem adiar PEC e criticam Câmara A Eurasia mudou a probabilidade de Lula ser reeleito?

Não, continua em 55.

Não aumentamos a probabilidade depois dos áudios (de Flávio Bolsonaro) porque estamos a cinco meses da eleição.

Tem muito chão pela frente, com vários capítulos para acontecer.

Esse tipo de acontecimento tende a se dissipar, na intenção de voto, ao longo do tempo.

Com essa denúncia, em si, não se inviabiliza a candidatura do Flávio Bolsonaro.

O que está deixando a gente acreditar numa prevalência do Lula é o aumento da sua aprovação, que está sendo camuflada pelo escândalo Bolsonaro.

A aprovação de Lula já subia antes da crise que mostrou a ligação de Flávio com o Vorcaro, é isso?

Sim.

A média de aprovação do presidente Lula, que era de 44% um mês atrás, está em 47% hoje.

Essa recuperação começou antes do vazamento dos áudios.

A gente está com dificuldades em destrinchar o quanto do crescimento de Lula é do áudio e o quanto é a melhora de sua aprovação.

Mas a taxa de recuperação da aprovação do presidente está aparecendo um pouco mais cedo do que eu imaginava.

Acreditava que isso seria visto em junho e julho, e está chegando agora, em maio.

Se tem algo que pode nos levar a ter uma probabilidade maior do Lula ganhar, é esse fenômeno, mais do que o escândalo do Flávio em si.

Mas há muitas incertezas…
O Lula tem vulnerabilidades: tem 80 anos de idade, tem um eleitorado pessimista, preocupado com corrupção e segurança.

Não podemos cometer o equívoco de pivotar demais para outro lado (virar demais a análise para o outro lado).

No fundo, nós temos uma eleição estruturalmente competitiva, com o incumbente com uma ligeira vantagem, mas com muitas vulnerabilidades que deixam essa eleição difícil de cravar.

Copa do Mundo ajuda?

Pode ser salutar para Lula.

Não pelo desempenho da seleção brasileira, mas o noticiário ruim diminui.

A cobertura da imprensa fica um pouco mais benigna.

Nesse ambiente, todos os benefícios podem ajudar um pouquinho.

Mas o noticiário se voltando para a Copa não ajuda também o Flávio?

O holofote nele diminui, sim, mas eu estou mais de olho na aprovação do presidente.

Isso é mais importante do que a intenção de voto no Flávio.

O que a gente foca, na Eurasia, é se será uma eleição de mudança ou continuidade e nas variáveis que impactam a aprovação do governo, do que na figura da oposição.

O fim da 6×1 impactará a eleição ao Senado?

O Senado vai ser um pouco mais sensível para as repercussões eleitorais dessa medida, e a gente acredita que há 70% de probabilidade de aprovar este ano, antes da eleição.

Nenhum senador vai se posicionar contra essa matéria, mas é um tema que ajuda mais o presidente.

O que impacta mais as disputas do Senado é uma direita mais fragmentada e dividida, com o escândalo que pega Vorcaro e Flávio Bolsonaro.


Fonte: Estadão

29/05/2026 09:42

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