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Opinião|Trump, em vez de unir o país, age cada vez mais como ‘bandido em chefe’

3 de junho de 2026
in ECONOMIA, POLÍTICA, SEGURANÇA
Home ECONOMIA
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Efeito Trump faz Europa considerar nova arquitetura nuclear e mais países cogitam fazer uma bomba A França anunciou uma nova estratégia nuclear e países como Suécia e Polônia cogitam construir armas nucleares próprias em meio a instabilidade de Donald Trump.

Crédito: Estadão
Gerando resumo
A cada mês que passa de sua presidência, Donald Trump abre mão de seu papel de comandante-chefe para se tornar uma espécie de ‘bandido-em-chefe’.

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Como assim?

Deixe-me enumerar as razões.

Somos uma nação em guerra hoje, com dezenas de milhares de soldados perto do Irã.

Geralmente, quando nossa nação está em guerra, a principal prioridade interna do comandante-chefe é manter o país unido.

Pois não há nada mais desmoralizante para as tropas americanas que lutam no exterior do que olhar para trás e ver nosso país se dilacerando internamente.

🧠 Especialistas Analisam estadão

E não há nada que incentive mais um inimigo a insistir em melhores condições para encerrar uma guerra com os Estados Unidos do que ver os Estados Unidos em guerra consigo mesmos.

E como Trump tem cumprido esse dever unificador de comandante-chefe?

Ele não moveu um dedo para conseguir o apoio dos democratas à guerra.

Em vez disso, priorizou agir como um “bandido em chefe”.

No mesmo momento em que Trump pedia aos nossos homens e mulheres de uniforme que fizessem o sacrifício supremo, ele se envolveu em uma tentativa descarada e ostensiva de roubar o Tesouro dos EUA para beneficiar a si mesmo, sua família e seus aliados políticos, o que poderia incluir aqueles que atacaram o Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021.

Foi tão ultrajante que nem mesmo alguns de seus bajuladores mais fiéis do Partido Republicano conseguiram aceitar.

Trump conspirou com seu próprio Departamento de Justiça, chefiado por seu ex-advogado pessoal, para usar o dinheiro dos contribuintes para criar um fundo secreto de US$ 1,776 bilhão, supostamente para indenizar os apoiadores de Trump que “sofreram com a instrumentalização da lei e a guerra jurídica” nas mãos de seu antecessor.

Na verdade, como observou o conselho editorial deste jornal, isso “recompensaria os leais dispostos a desafiar a lei e cometer violência em nome do presidente”.

Felizmente, um juiz federal suspendeu temporariamente o esquema que ninguém descreveu melhor do que o ex-líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell: “Então, o principal responsável pela aplicação da lei do país está pedindo um fundo secreto para pagar pessoas que agridem policiais?

Totalmente estúpido, moralmente errado — escolha você.” Diante de toda essa oposição, o procurador-geral interino de Trump, Todd Blanche, disse na terça-feira que estava retirando esse plano terrível.

Se Trump tivesse um pingo de integridade, em vez de conspirar para reservar US$ 1,776 bilhão para potencialmente pagar esses falsos defensores da fronteira da liberdade — partidários que saquearam os corredores do Congresso —, ele instruiria o Congresso a gastar exatamente essa quantia para apoiar os verdadeiros defensores da fronteira da liberdade de hoje: o Exército ucraniano.

Isso significa tanto resistir à tentativa de Vladimir Putin de esmagar a democracia da Ucrânia quanto minar a capacidade da Rússia de ameaçar os outros países livres da Europa.

Deus abençoe os combatentes da Ucrânia.

Infelizmente, porém, Trump aparentemente quer dinheiro apenas para pessoas que tentaram derrubar nossa Constituição em casa, não para aqueles que querem imitar nossa democracia constitucional no exterior.

Além disso, o Departamento de Justiça dirigido por Trump inseriu discretamente, como um suplemento a esse acordo de fundo secreto, um documento de uma página assinado por Blanche afirmando que o governo estaria “PARA SEMPRE IMPEDIDO e EXCLUÍDO de processar ou perseguir” reclamações fiscais pendentes contra Trump, seus familiares ou suas empresas.

Essa medida continua em vigor, disse Blanche na terça-feira.

O presidente Trump tem outro apelido que sugere seus desafios éticos: “negociador-chefe”, como a Associated Press propôs recentemente.

Por quê?

Porque “os presidentes recentes evitaram negociar ações de empresas cuja sorte poderiam elevar ou arruinar com um simples traço de caneta, mas Donald Trump quebrou esse precedente no primeiro trimestre deste ano com mais de 3.600 ordens de compra e venda”, escreveu a AP, “muitas delas envolvendo empresas cujos lucros foram diretamente afetados por suas decisões como chefe do governo”.

Isso representou uma média de 50 transações por dia em ações que incluíam fornecedores militares dos EUA afetados pela guerra com o Irã.

“Se ele fosse secretário de Defesa, estaria cometendo um crime”, disse Richard Painter, principal assessor de ética da Casa Branca no governo de George W.

Bush, à AP.

“Tecnicamente, ele pode fazer isso, mas é uma violação fundamental da confiança.” Trump não apenas cortou praticamente toda a ajuda financeira dos EUA à Ucrânia, como também está reduzindo as tropas americanas em território dos países da Otan justamente quando Putin, sentindo que está perdendo a guerra, as ameaça cada vez mais.

Justamente quando os americanos começam a perceber que Trump está se tornando um predador do nosso sistema — tentando manipular o sistema judiciário para gerar dinheiro disponível para seus piratas de 6 de janeiro e imunidade contra as investigações em andamento sobre impostos para si mesmo e sua família — nossos aliados estão concluindo que a América de Trump está se tornando um predador perigoso para eles.

De fato, algo está acontecendo com os aliados tradicionais dos Estados Unidos que eu jamais imaginei presenciar, nem nesta vida, nem na próxima.

No período pós-Segunda Guerra Mundial, nós e nossos aliados abraçamos a doutrina da “dissuasão” contra a União Soviética e, posteriormente, contra a Rússia, para impedir qualquer tentativa do Kremlin de expandir sua influência à força no mundo livre ou de subjugar os países vizinhos.

Não mais.

Nossos aliados viram Trump ameaçar tornar o Canadá o 51º estado americano e anexar a Groenlândia da Dinamarca.

Viram-no iniciar uma guerra com o Irã sem consultar a Otan e, em seguida, exigir que a Otan nos ajudasse a sair do caos que se instaurou.

Viram-no cortar drasticamente a ajuda financeira americana à Ucrânia, colocar o agressor russo no mesmo patamar moral que aquele país e, para piorar a situação, impor tarifas imprudentes e mal concebidas a todos os nossos aliados.

Como resultado disso tudo, algo sem precedentes está acontecendo: “Deter a América de Trump está se tornando uma prioridade estratégica para nossos aliados, tanto quanto deter a Rússia era”, disse-me Nader Mousavizadeh, diretor executivo da Macro Advisory Partners, uma consultoria geopolítica, e ex-conselheiro sênior do Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan.

E como poderia ser diferente?

Ao observar como Trump castigou o Canadá com tarifas, é difícil não concluir que a pior posição para um país durante o segundo mandato de Trump “é ser o aliado mais próximo dos Estados Unidos e ter integrado sua economia, sistemas de energia e forças armadas aos dos Estados Unidos”, afirmou Mousavizadeh.

Todos agora podem ver, acrescentou ele, que Trump “instrumentalizará a dependência de qualquer país em relação aos Estados Unidos e a usará para extrair tudo o que puder, na definição mais restrita, tática e transacional do poder americano”.

Não é de admirar que, após Trump intensificar sua retórica sobre a anexação da Groenlândia, os membros europeus da Otan — Alemanha, Suécia, França, Noruega, Holanda, Finlândia e Reino Unido — tenham anunciado planos para enviar pequenos contingentes militares à Groenlândia para reforçar as forças dinamarquesas.

Daniel Fried, ex-embaixador dos EUA na Polônia, observou em um ensaio para o Atlantic Council que, embora esses aliados da Otan tenham tentado justificar sua ação como necessária para reforçar a segurança no Ártico, eles também “usaram a palavra ‘dissuasão’.

Para os europeus falarem nesses termos sobre os Estados Unidos, mesmo que implicitamente, é um ponto baixo, mas é necessário”.

Não podemos esquecer que, no início do governo Trump forçou a Ucrânia a conceder aos Estados Unidos acesso a minerais críticos em troca de ajuda americana contra um exército russo que tentava invadi-la.

Esta é a verdadeira “Doutrina Trump”: Oponha-se aos Estados Unidos e eu lhe imporei tarifas; dependa dos Estados Unidos e eu o extorquirei.

📊 Informação Complementar

A única resposta racional para nossos aliados é tentar “dissuadir e diversificar”, concluiu Mousavizadeh.

E se Trump mantiver isso durante seus quatro anos de mandato, acrescentou ele, “nenhum líder da Otan poderá jamais concordar, de forma responsável, com o grau de dependência da tecnologia, dos sistemas de defesa ou dos sistemas financeiros dos EUA” que os países da Otan sempre consideraram como certo.

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Retórica de Trump faz mais países cogitarem a bomba atômica Como Trump entrou na fase de impasse de suas intervenções internacionais em Gaza, na Ucrânia e Irã Quem são as potências médias que buscam novas alianças para escapar das ameaças de EUA e China Estive em Portugal esta semana e fiquei chocado com o quanto os executivos europeus falam sobre terem perdido a fé nas instituições americanas e nos Estados Unidos como garantidor das normas jurídicas globais — algo que sempre consideraram garantido.

É literalmente desorientador para eles, como excursionistas que perderam a bússola.

Em resumo, ter um presidente que se comporta como um bandido — e não como um comandante-em-chefe — está nos custando caro, tanto interna quanto externamente.

Essa perversão da presidência americana está minando a própria estrutura de alianças que venceu duas guerras mundiais e a Guerra Fria e gerou um dos períodos mais longos de paz e prosperidade da história.

A cada dia que toleramos tal comportamento, colocamos em risco o futuro de nossos filhos.


Fonte: Estadão

03/06/2026 12:45

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