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Editorial: ‘Se não for contido no caso da Groenlândia, o presidente americano deixará o mundo muito mais inseguro’

21 de janeiro de 2026
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Não há nada de intrinsecamente ilegítimo em discutir os interesses estratégicos dos Estados Unidos na Groenlândia.

A ilha ocupa posição central no Ártico, abriga infraestrutura militar sensível e tende a ganhar relevância com a abertura gradual de novas rotas marítimas e a disputa por recursos críticos.

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O problema não está tanto no objeto da ambição americana, mas no método escolhido para persegui-la.

Ao recorrer à retórica da coerção – tarifas punitivas, ameaças veladas e insinuações de força contra aliados democráticos –, o presidente Donald Trump rompe um tabu que sustentou a estabilidade atlântica por décadas.

A anexação não é necessária para atender a nenhuma das alegadas preocupações de Washington.

📊 Fatos e Dados

Desde o Acordo de Defesa de 1951, os Estados Unidos dispõem de amplos direitos militares na Groenlândia, incluindo bases, radares e presença permanente.

Nada impediria a ampliação dessa cooperação, nem no plano militar nem no econômico.

A Dinamarca e o próprio governo groenlandês já deixaram claro que estariam dispostos a negociar maior presença americana, investimentos, exploração mineral ou novas instalações estratégicas.

A soberania formal, portanto, não é um requisito funcional.

É um símbolo.

É justamente aí que a narrativa de “segurança estratégica” desmorona.

A infraestrutura mineral da Groenlândia é incipiente, os custos são elevados, e os prazos, longos.

A militarização adicional do Ártico poderia ser obtida por meios cooperativos.

Ainda assim, a Casa Branca insiste que nada basta aquém da posse territorial.

A explicação mais plausível não é estratégica, mas política: além de uma manobra diversionista para deixar os malogros domésticos em segundo plano, trata-se da busca por um gesto de força, um marco de legado, a afirmação de uma lógica em que o poder se mede pela capacidade de impor vontades, não de construir acordos.

Esse desvirtuamento não ocorre no vácuo.

Ele se insere numa visão mais ampla de um mundo dividido em esferas de influência, na qual compromissos, tratados e alianças são instrumentos táticos, não vínculos duráveis.

Aplicada à Groenlândia, essa lógica produz um efeito corrosivo sobre a Aliança Atlântica.

Pela primeira vez desde a criação da Otan após a 2.ª Guerra, aliados se veem compelidos a discutir dissuasão simbólica contra os próprios Estados Unidos.

A confiança – ativo invisível, mas essencial – se deteriora a olhos vistos.

E quando a confiança é desintegrada, os custos se multiplicam em cadeia: na coesão política, na previsibilidade estratégica, na credibilidade financeira.

A resposta europeia, por isso, não pode ser nem submissa nem impulsiva.

Ceder à chantagem seria desastroso: consolidaria o princípio de que a força faz o direito, convidando novas pressões no futuro.

Mas escalar sem cálculo apenas aprofundaria a fratura.

Há um caminho intermediário: firmeza institucional, coordenação entre aliados e uso inteligente dos freios disponíveis dentro do próprio sistema americano.

O Congresso dos EUA, a opinião pública e a tradição jurídica do país ainda podem funcionar como contrapesos reais.

Ao mesmo tempo, uma presença europeia moderada no Ártico e a manutenção de canais diplomáticos sérios podem criar espaço para uma saída negociada.

Um acordo que reforce a segurança do Ártico, amplie a cooperação militar e preserve a soberania dinamarquesa permitiria a Trump declarar vitória sem destruir a aliança que os Estados Unidos levaram décadas para construir.

A alternativa – a normalização da coerção entre aliados – teria custos muito mais amplos.

📊 Informação Complementar

Rússia e China observam atentamente.

Ambas ganham quando o pilar central da ordem liberal passa a agir como seu principal fator de instabilidade.

A Groenlândia é pequena.

O precedente, não.

Ao tratar aliados como obstáculos e regras como inconvenientes, Trump acredita colocar a América “em primeiro lugar”.

Na prática, acelera a transição para um mundo menos previsível e muito mais perigoso.

Por esse motivo, a Europa precisa reagir a Trump, estabelecendo um limite para a sua irresponsabilidade.


Fonte: estadao

21/01/2026 07:11

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