Vorcaro diz que se tivesse influência política não estaria de tornozeleira: ‘Não teria sido preso’ Em depoimento à PF no dia 30 de dezembro, banqueiro suspeito de fraudes de R$ 12,2 bi negou relações próximas com políticos.
Crédito: Polícia Federal Um grupo de parlamentares, apelidado de ‘Bancada do Master’, é acusado de favorecer o Banco Master no Congresso, blindar políticos e pressionar a Polícia Federal e o Banco Central.
O banco, envolvido em vendas fraudulentas de carteiras de crédito ao BRB, está sob investigação.
Propostas para aumentar a cobertura do FGC e limitar a atuação da PF foram apresentadas.
A criação de uma CPI enfrenta resistência, com líderes políticos tentando barrar a investigação.
O caso envolve figuras como Ciro Nogueira e Claudio Cajado.
BRASÍLIA — Um grupo de parlamentares agiu para aprovar propostas no Congresso Nacional que favoreciam o Banco Master, blindavam políticos, pressionavam a Polícia Federal e o Banco Central e agora tenta evitar a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o caso.
Nos bastidores, as iniciativas têm sido atribuídas à chamada “Bancada do Master” no Congresso.
A bancada deixou digitais enquanto o Master vendia carteiras “podres” para o Banco de Brasília (BRB), o banqueiro Daniel Vorcaro aumentava seu leque de relações políticas com festas e eventos patrocinados e o BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal, tentava comprar o banco.
As movimentações do Banco Master estão sob investigação da Polícia Federal.
O processo sigiloso está nas mãos do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), cujos familiares tiveram participação em um resort de luxo que recebeu recursos de fundos ligados ao Master.
O Master começou a vender carteiras de crédito consignado para o BRB em junho de 2024.
Segundo a investigação, de janeiro a junho de 2025, o BRB comprou R$ 6,7 bilhões em carteiras falsas do Master e pagou mais R$ 5,5 bilhões de prêmio, totalizando R$ 12,2 bilhões.
Em março do ano passado, o BRB tentou comprar o Master, mas a proposta foi rejeitada pelo Banco Central em setembro.
Vorcaro foi preso em novembro, tendo sido solto depois, e o banco foi liquidado pelo BC.
As datas coincidem com os movimentos de líderes no Congresso para aprovar propostas favoreciam o banco e blindavam políticos.
Navegue neste conteúdo Ciro Nogueira apresentou emenda para aumentar valor coberto pelo FGC, vetor de negócios do Master No dia 13 de agosto de 2024, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), apresentou uma emenda na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) de autonomia financeira do Banco Central para aumentar o valor coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil por CPF para R$ 1 milhão.
A proposta foi identificada por políticos e integrantes do mercado financeiro como uma das primeiras “digitais” para favorecer o Master no Congresso.
Os títulos com cobertura do FGC formavam o principal vetor do Master nessa época.
O banqueiro Daniel Vorcaro disse, em depoimento à Polícia Federal, que o modelo de negócio era “100% baseado no FGC”.
O Master vendia CDBs (Certificados de Depósito Bancário) oferecendo rentabilidade bem acima da média dos grandes bancos para atrair investidores, mas demonstrou não ter capacidade para honrar esses pagamentos.
Como mostrou o Estadão, Ciro Nogueira é um dos políticos que se conectaram com Vorcaro, participando de eventos patrocinados pelo Master no exterior, apoiando as negociações com o BRB e defendendo interesses do banqueiro no Congresso.
A emenda não foi acolhida pelo relator da PEC, senador Plínio Valério (PSDB-AM).
Em novembro de 2024, o deputado Filipe Barros (PL-PR) apresentou um projeto de lei idêntico à emenda proposta por Nogueira, mas o texto não avançou na Câmara e segue na gaveta do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Barros afirmou ao Estadão que o projeto “nasceu exatamente para combater interesses criminosos de instituições golpistas” e que aumentar o FGC é uma proposta para dar resguardo aos pequenos e médios investidores.
O parlamentar declarou que decidiu retirar o projeto de tramitação por vê-lo contaminado por “ilações” que não corresponderiam à sua atuação.
Filipe Barros assinou o pedido de abertura de uma CPI para investigar os negócios do Banco Master no Congresso.
Operadores do mercado bancário viram na iniciativa de Ciro Nogueira uma tentativa do Master de alargar a atuação que já estava sob crítica, como mostrou o Estadão.
O argumento do senador, apresentado na exposição de motivos da emenda, era o de “incentivar maior competitividade” no setor bancário contra “o monopólio dos serviços para as instituições mais tradicionais e maiores”.
Procurado, Ciro Nogueira não quis comentar.
Líderes da Câmara tentaram dar poder para Congresso destituir diretores do BC Dois antes de o Banco Central rejeitar a compra do Master pelo BRB, e com as investigações avançando, o deputado Claudio Cajado (PP-BA) apresentou um requerimento de urgência para acelerar a tramitação de um projeto de lei de 2021 que permite ao Congresso destituir presidentes e diretores do Banco Central.
Cajado é vice-presidente do PP e um dos aliados mais próximos a Ciro Nogueira.
Ele chegou a presidir o partido provisoriamente na época em que Nogueira era ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL).
O requerimento ganhou apoio de seis líderes partidários e começou a tramitar no dia 2 de setembro: Isnaldo Bulhões (MDB-AL), Doutor Luizinho (PP-RJ), Pedro Lucas Fernando (União-MA), Pedro Campos (PSB-PE), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), e Gilberto Abramo (Republicanos-MG).
Desses, apenas Pedro Campos e Sóstenes Cavalcante assinaram o pedido para criar uma CPI do Master no Congresso.
A proposta foi criticada por autoridades e ex-diretores do Banco Central, como o ex-presidente da autarquia e ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles e o ministro da Fazenda do governo Lula, Fernando Haddad, por ameaçar diretores do Banco Central com demissão no momento em que a autoridade monetária conduzia uma investigação sobre o Master e uma análise sobre a proposta de compra do banco de Vorcaro pelo BRB.
Após a apresentação do requerimento de urgência, a deputada Lídice da Mata (PSB-BA), uma das autores do projeto, pediu a retirada de tramitação da proposta na Câmara.
📊 Informação Complementar
A bancada do PSB não concordou com o resgate do texto no meio do Caso Master.
O líder do partido na Casa, Pedro Campos (PE) disse ao Estadão que, como representante da bancada, assinou todas as urgências de projetos do partido e que o PSB foi um dos primeiros a denunciar as irregularidades da compra do Banco Master e a propor uma CPI sobre o tema.
Ele foi um dos deputados que assinaram a CPI.
Câmara aprovou PEC que blindava e dava foro especial para dirigentes partidários No dia 16 de setembro de 2025, Claudio Cajado apresentou o parecer da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Blindagem, dando foro privilegiado para dirigentes de partidos políticos com representação no Congresso, que passariam a ser julgados pelo STF em crimes comuns.
A PEC foi aprovada na Câmara, sob forte reação e manifestação popular nas ruas, e não andou no Senado.
A iniciativa foi patrocinada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e apoiada pelos principais líderes da Casa.
Nessa época, o Master já estava sendo investigado e o Banco Central havia rejeitado há duas semanas a compra do banco de Daniel Vorcaro pelo BRB.
O presidente do PP, Ciro Nogueira, e o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, agiram juntos para oferecer uma aliança e apoiar a campanha do atual governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), ao Senado em 2026, após o emedebista atuar para o BRB comprar o Master, como o Estadão mostrou.
O União Brasil, presidido por Rueda, controla o RioPrevidência, o fundo de previdência dos servidores do Estado do Rio, que aplicou aproximadamente R$ 1 bilhão no Master.
O fundo foi alvo de uma operação da Polícia Federal por suspeita de irregularidades na operação, incompatível com a finalidade do instituto de previdência e com risco elevado.
O presidente do RioPrevidência, Deivis Marcon Antunes, sabia da possibilidade de ser alvo de uma operação da PF e saiu do País no dia 15 de janeiro.
Ele deixou o cargo após a operação.
Não há informação sobre presidentes de partidos investigados no caso Master.
Nos bastidores, porém, a iniciativa foi atribuída às apurações envolvendo a instituição.
Claudio Cajado negou que a proposta pudesse estar relacionada ao Caso Master.
“Desculpe, mas você está fazendo uma tremenda ilação inadequada e sem sentido ao relacionar a PEC das Prerrogativas ao Banco Master.
Nada a ver foro privilegiado dos presidentes dos partidos nacionais a Vorcaro ou ao Banco Master”, disse ele à reportagem.
“Você deveria ter mais cuidado com suas reportagens e perguntas, em especial a mim.” O parlamentar não quis comentar sobre o projeto de destituição de diretores do Banco Central.
Relator de PL Antifacção tentou limitar atuação da Polícia Federal após prisão de Vorcaro Em novembro, ao analisar o projeto de lei antifacção, enviado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a Câmara fez alterações na proposta.
O relator do texto na Casa, Guilherme Derrite (PP-SP), apresentou diferentes versões do parecer com propostas que, na visão do governo e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, limitavam a atuação da instituição.
A proposta determinava que a Polícia Federal só poderia entrar em investigações de organizações criminosas quando os fatos tivessem repercussão interestadual ou transnacional e mediante pedido dos governadores.
Além disso, dividia recursos que hoje ficam com a PF para os Estados.
A proposta entrou na pauta da Câmara um dia depois de a Polícia Federal prender Daniel Vorcaro.
Após críticas do governo, o relator voltou atrás em alguns pontos, mas manteve a retirada de recursos da PF, que foi revertida pelo Senado.
Segundo líderes da Câmara, essa foi mais uma iniciativa que tumultuou as discussões do projeto enquanto o órgão investigava o Master.
Derrite afirmou em nota que “a tentativa de associar o PL Antifacção aos fatos envolvendo o Banco Master é juridicamente incorreta e politicamente oportunista.” Segundo ele, “a narrativa” de que o projeto mexe competências da Polícia Federal é “absolutamente falaciosa”.
O deputado ressaltou que assinou o pedido de instalação da CPI do Banco Master no Congresso.
Grupo age para barrar CPI do Master no Congresso Conforme o Estadão mostrou, os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), resistem a instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Banco Master no Congresso Nacional.
Em reunião de líderes, Motta apontou obstáculos regimentais que dificultariam a criação da comissão.
A situação aumentou a pressão sobre ele e Alcolumbre, responsável por abrir uma comissão mista entre deputados e senadores.
O presidente do Senado avisou a interlocutores que tomará uma decisão após a volta do recesso, nesta segunda-feira, 2, mas aliados avisam que ele não está disposto a criar uma CPI do Master.
O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, também entrou em campo para barrar a instalação da CPI, segundo apurou a reportagem.
Um dos parlamentares que busca assinaturas para a criação do colegiado diz que houve houve investidas de deputados do União Brasil para limitar o sucesso na coleta de assinaturas para a CPI e até mesmo tentativas de reduzir o número de apoios.
A mensagem ouvida por esse parlamentar é de que Rueda estava pessoalmente interessado nas questões relacionadas à comissão e que partiu dele a ordem de envio dos emissários do União.
Rueda é constantemente apontado por parlamentares como uma espécie de “lobista” do Master e de Vorcaro no Congresso.
O Estadão ouviu essa avaliação de dois deputados e um senador que só aceitaram falar reservadamente.
Procurado, o presidente do União Brasil não comentou.
A criação da CPI também não interessa ao governo.
O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), avisou que é contra a criação do colegiado.
Apesar disso, um grupo de governistas começou a apoiar a investigação do Congresso — um deles foi o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-PA).
‘Bancada do Master’ apoiou tentativa do TCU de questionar liquidação Além dos projetos e da atuação contra a CPI, a “Bancada do Master” agiu nos bastidores para apoiar uma tentativa do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU), de questionar a liquidação do Master decretada pelo Banco Central.
Jhonatan chegou a determinar uma inspeção no BC com a “máxima urgência” e falou até em impedir a autoridade monetária de vender os bens do banqueiro Daniel Vorcaro.
Depois, voltou atrás e a inspeção se tornou uma diligência negociada com o Banco Central.
Ainda assim, como mostrou o Estadão, auditores do TCU relataram pressão do ministro para influenciar na análise técnica.
Segundo integrantes do Congresso, a cúpula do Legislativo está alinhada com Jhonatan de Jesus, apadrinhado pelo ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) para assumir a cadeira na Corte de Contas.
Em entrevista à GloboNews, o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos no Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), disse que Lira e Motta estavam pressionando um setor do TCU a anular a liquidação do Master.
Lira negou e chamou a declaração de “fake news”.
Motta não comentou.
Líder do governo Lula no Senado é amigo de ex-sócio de Vorcaro e sugeriu Lewandowski para o Master O líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), confirmou que indicou o ex-ministro da Justiça e ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski para ser consultor do Banco Master.
Wagner não assinou a CPI do Master.
O senador é amigo do empresário Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro.
Lima era parceiro da empresa estrangeira que venceu o leilão de privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), que tinha uma rede de supermercados chamada Cesta do Povo na Bahia.
O negócio originou o Credcesta, um cartão de benefício consignado, incorporado mais tarde pelo Master.
Em entrevista ao portal BNews, da Bahia, Jaques Wagner confirmou que negociou a venda da Cesta do Povo no Estado com Augusto Lima.
O senador afirmou, no entanto, que “está fora dessa confusão” do caso Master e disse que apenas sugeriu o nome do ex-ministro do STF para o banco de Daniel Vorcaro.
Fonte: estadao
02/02/2026 16:04











