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Há um cansaço que alimenta os representantes que negam a política

9 de fevereiro de 2026
in Meio Ambiente, POLÍTICA
Home Meio Ambiente
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Na semana em que Legislativo e Judiciário iniciaram suas atividades deste ano eleitoral, o horizonte político aponta para uma profunda e crescente desconfiança dos brasileiros em relação a suas instituições e representantes.

Esses que deveriam ser reconhecidos como pilares da democracia, a partir de uma reputação construída com base em credibilidade, são vistos como agentes sistemáticos de desvios de conduta.

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As exceções não fazem frente ao rolo compressor das artimanhas percebidas pela opinião pública.

Como resultado, há um cansaço em relação a “tudo que está aí” — foco das manifestações de junho de 2013 —, que mais e mais alimenta a ascensão de representantes que negam a política como forma de organizar a vida em sociedade.

Não por acaso, o Datafolha revelou, em agosto de 2025, que 78% dos brasileiros afirmam que deputados e senadores priorizam os próprios interesses ao invés de defender a população que deveriam representar.

📌 Pontos Principais

Uma quase unanimidade!

O mesmo estudo mostra ainda que 68% creem que a Justiça age em favor dos próprios objetivos, e outros 59% dizem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pensa mais em si próprio do que na população brasileira.

Há anos o Congresso Nacional é a instituição que apresenta os maiores índices de desconfiança, sempre com rejeição superior à aprovação.

Na comparação da vida real dos cidadãos com o desempenho dos parlamentares, os resultados das pesquisas adquirem a dramaticidade que justifica tanta rejeição.

Enquanto o brasileiro comum enfrenta dificuldades próprias à sua inserção social e econômica, quando recebe notícias vindas da capital federal depara-se com sucessivos escândalos envolvendo parlamentares — mensalão, Lava-Jato, orçamento secreto, entre tantos outros —, consolidando a imagem do Congresso como um espaço privilegiado para negociações pouco transparentes, sempre para benefícios próprios.

O abismo percebido entre a atuação parlamentar e o alto custo de vida, a insegurança alimentar e das ruas, a precariedade dos serviços públicos e privados de saúde e, cada vez mais, a exposição aos efeitos da crise climática ajuda a entender a baixa reputação do Parlamento.

Do ponto de vista do cidadão, não há ações políticas que colaborem para amenizar essas mazelas do cotidiano, mas abundam atitudes ilícitas que só contribuem para piorar esses problemas.

“Há um cansaço que alimenta os representantes que negam a política”
A avaliação popular não é muito diferente em relação ao Poder Judiciário.

Mesmo com a recente e decisiva atuação do STF em defesa da democracia contra a tentativa de golpe de Estado, há uma percepção geral mais negativa do que positiva.

Pesquisa da Quaest realizada em setembro de 2025 mostra que há cerca de 49% de desconfiança da população em relação ao Judiciário, sendo que esse número é fortemente influenciado pela orientação política: eleitores de direita tendem a desconfiar mais da Corte do que eleitores de esquerda.

Mas não é só esse fator que influencia a avaliação.

Estudos da FGV e da CNJ apontam para a morosidade e a burocracia, que indicam uma Justiça falha e tardia.

Citam também o uso do “juridiquês”, que dificulta a compreensão das decisões judiciais.

📊 Informação Complementar

Há ainda o alto custo do acesso a bons advogados, que transforma a assessoria jurídica em privilégio para poucos.

Essa impressão é confirmada por 90% dos advogados ouvidos pelo Datafolha em 2021, ao afirmarem que a Justiça trata melhor aqueles de classes sociais mais altas e com maiores rendas, enquanto apenas 7% entendem que não há distinções.

O recente escândalo do Banco Master, com rumorosos possíveis envolvimentos de parentes de ministros, contribui para aprofundar essa crise de imagem do Poder Judiciário.

Os desdobramentos das investigações, incluindo depoimentos em CPIs, devem avançar durante o período de campanha eleitoral com potencial para intensificar desconfianças.

Já a imagem do Executivo sofre forte influência desse clima de descrédito generalizado em relação às autoridades.

A rejeição ao atual incumbente fica próxima a 50% em todos os levantamentos de intenção de voto.

Isso impõe um teto atual para a reeleição que exige esforço do governo para melhorar sua avaliação, condição necessária para diminuir a rejeição.

Esse esforço vai esbarrar não só na desconfiança de metade da população, mas também nos embates com o Congresso por emendas e aprovações de projetos de interesse governamental.

Como a rejeição à oposição, independentemente do nome, é semelhante, essa dinâmica contribui para que boa parte dos eleitores pense em alternativas de ruptura, mesmo que no final a dita polarização se concretize entre as candidaturas dominantes.

Não será o resultado da eleição suficiente para devolver a confiança majoritária na Presidência da República.

Dificilmente um presidente atingirá novamente a aprovação estratosférica de 83% obtida por Lula ao final de seu segundo mandato, em 2010.

A divisão do país impõe um ambiente muito mais severo para aquele que irá comandar o país a partir de 2027.

Essa crise institucional que emoldura as eleições tem como agravante o ambiente de desinformação alimentado pelo desenvolvimento da inteligência artificial ao alcance das campanhas.

Além de toda a desconfiança consolidada por anos de desmandos e abusos, o eleitor não sabe em qual fonte confiar e é induzido a cair em inúmeras armadilhas que, por sua natureza ágil e de grande alcance, o Tribunal Superior Eleitoral não consegue eliminar e punir no tempo necessário.

A proteção que encontra é o refúgio em “bolhas” onde consegue se reconhecer, mas que radicalizam a polarização.

É nesse ambiente que 2026 se apresenta como uma encruzilhada para o futuro.

As eleições vão refletir a forma como os brasileiros olharam para suas instituições e representantes durante o ano.

O resultado das urnas definirá como o país será conduzido, mas a crise de representação e a desconfiança nas instituições permanecerão, sejam quais forem os legisladores e agentes políticos eleitos.

Mauro Paulino é analista de eleições e opinião pública.

Foi diretor-geral do Datafolha por 25 anos
Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981


Fonte: veja

09/02/2026 08:26

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