Trilhos esquecidos: por que o Brasil ficou para trás nas ferrovias Com apenas 30 mil km de linhas, país perde competitividade enquanto potências investem pesado em trens de carga e passageiros Gargalos do Brasil|Do R7 Ao chegar à antiga estação de Mairinque, interior de São Paulo, senti uma mistura de tristeza e revolta.
A riqueza do país estava ali, sucateada.
Quilômetros de trilhos, dezenas de vagões e locomotivas abandonados.
E pensar que durante mais de 100 anos, essa ferrovia ligava a região ao porto de Santos, o maior da América Latina.
Na mesma hora, me lembrei dos meus tempos de correspondente internacional.
Durante 8 anos, morei no Japão e na Inglaterra, dois países onde o transporte ferroviário é prioridade, tanto para passageiros quanto para cargas.
💥 Impacto e Consequências
Caminhando pelas ruínas da antiga ferrovia, também recordei as aulas de história na escola, o professor dizendo que o nosso país tinha adotado o modelo de transporte rodoviário para desenvolver e integrar o país.
Essa política pública começou com o governo de Juscelino Kubitschek, nos anos 1950 e durou décadas.
Até hoje, o Brasil paga o preço por ter deixado de lado o investimento em ferrovias.
O custo das nossas mercadorias sobe e isso tira competitividade dos produtos brasileiros.
Segundo o professor de economia, Cláudio Felisoni de Angelo, “a força da indústria automobilística, o lobby da indústria automobilística, associado também a importantes características do transporte rodoviário, fizeram com que a malha ferroviária não só não crescesse, como encolheu ao longo dos anos”.
Em 1949, o país tinha 35 mil quilômetros de trem.
E agora, tem apenas 30 mil.
É preciso comparar com outros países de dimensões parecidas com o Brasil, para entender o quanto estamos para trás.
Os Estados Unidos têm 250 mil quilômetros de trilhos, China, 165 mil quilômetros.
Índia, 68 mil.
E Canadá, quase 48 mil quilômetros.
Ou seja, o transporte ferroviário é um gargalo na economia brasileira.
Os trens carregam menos de 18% de toda carga no Brasil, sendo 100% dos minérios e metade dos grãos.
O transporte ferroviário pode economizar 50% no custo do frete.
Na gravação desse especial, nós também visitamos a estação de Eldorado, na grande Belo Horizonte.
Vimos de perto vagões carregados com grãos, prontos para seguir em direção ao complexo portuário de Vitória, no Espírito Santo, e pudemos entender todo o potencial do transporte ferroviário.
Cada vagão transporta 3 vezes o que um caminhão carrega.
Fazendo uma conta rápida, um trem com 80 vagões que faz o trajeto até um porto brasileiro, tira das rodovias 240 caminhões.
Por isso, esse é um tipo de transporte muito mais barato, mais seguro e mais ecológico.
Existe demanda.
Karen Duarte, supervisora de operações ferroviárias da empresa de logística que visitamos em Minas Gerais, explica: “Aqui a gente recebe tanto produtos de agronegócio e fertilizantes.
Então, tem soja, tem milho, farelo.
📊 Informação Complementar
A gente também tem a parte aqui de produtos siderúrgicos e mineração, tem minério”.
Conversamos com especialistas para entender por que o investimento público em trens e trilhos é tímido.
Para cada quilômetro de ferrovia, é preciso investimento de até 30 milhões de reais.
Só a locomotiva custa 20 milhões de reais.
Cada vagão, um milhão de reais.
Em média, uma ferrovia demora 15 anos para ficar pronta.
Então, o governante que começa a construí-la não poderá inaugurá-la no seu mandato.
É mais fácil construir rodovias, que ficam prontas bem antes e podem ser inauguradas.
O Ministério dos Transportes diz que executa um plano nacional para ampliar e modernizar a malha.
O objetivo também é atrair capital privado.
Nos últimos 30 anos, um programa de concessões permitiu investimento privado de 200 bilhões de reais no sistema ferroviário.
A frota triplicou.
Mas ainda falta muito para que mais riqueza do Brasil possa ser transportada pelos trilhos que cortam o país.
E ainda sonho com o dia em que sentarei num trem-bala saindo daqui de São Paulo e me leve até o Rio de Janeiro.
Da mesma forma que viajei inúmeras vezes entre Tóquio e Osaka ou entre Londres e Paris…
Quem sabe, um dia!
Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo.
Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp
Fonte: r7
06/03/2026 03:29











