Mercado reage bem a tarifaço derrubado nos EUA, mas vê futuro incerto Segundo analistas ouvidos pelo Metrópoles, primeira reação nas bolsas é positiva, mas há dúvida sobre qual será a eventual resposta de Trump atualizado Compartilhar notícia A reação inicial do mercado financeiro à decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de derrubar o tarifaço comercial imposto pelo governo de Donald Trump a diversos países, inclusive o Brasil, vem sendo positiva, nesta sexta-feira (20/2), mas ainda há muitas dúvidas em relação ao futuro.
A avaliação é de economistas e analistas do mercado consultados pela reportagem do Metrópoles pouco depois do anúncio da decisão da mais alta Corte da Justiça norte-americana.
Por 6 votos a 3, o Supremo dos EUA considerou ilegais as tarifas globais aplicadas por Trump.
Segundo a Corte, a lei utilizada pela Casa Branca como base para aplicar as taxas “não autoriza o presidente a impor tarifas”.
“A decisão de hoje limita o poder do presidente Trump de usar tarifas como arma política permanente, o que diminui o grau de incerteza de maneira geral e tende a ser positivo para os mercados”, afirma Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
🔍 Detalhes Importantes
“Por um lado, as tarifas de Trump tinham sido vendidas politicamente como fonte de receita para reduzir o déficit dos EUA.
Elas já trouxeram US$ 118 bilhões em receita em 2026, até o final de janeiro, contra US$ 28 bilhões em receitas de tarifas no mesmo período do ano passado”, observa Zogbi.
De acordo com a economista, se mantidas até 2035, “as tarifas poderiam reduzir o déficit em cerca de US$ 3 trilhões via receita tarifária e menores custos de juros, segundo estimativas”.
“A derrubada da maior parte dessas tarifas remove essa fonte potencial de consolidação fiscal no longo prazo, o que, em teoria, é negativo para o quadro fiscal e pode afetar os juros de longo prazo.
Ao mesmo tempo, o principal ‘driver’ de percepção de risco segue sendo a trajetória estrutural de gastos e crescimento, não as tarifas”, explica.
“Na renda variável, os mercados estão reagindo positivamente, com uma menor incerteza jurídica e menores custos para as companhias listadas, especialmente as que têm cadeias globais de suprimentos e vendas”, prossegue Zogbi.
“As tarifas não resultaram em choques inflacionários em um primeiro momento, mas podem pesar sobre o crescimento.
Removê-las, ou dificultar a implementação por meio de um rito de aplicação de tarifas mais complexo, pode melhorar produtividade e crescimento potencial na margem.” Também ouvido pelo Metrópoles, Hugo Queiroz, sócio e diretor da L4 Capital, destacou que a decisão da Suprema Corte “era esperada”.
“O tribunal não tem esse viés político que vemos muitas vezes no Supremo brasileiro.
Foi uma decisão voltada a estabelecer a separação de Poderes, principalmente”, afirmou.
“O Supremo dos EUA interpretou que as tarifas impostas pelo governo Trump teriam configurado um abuso de poder.
Eles decidiram que, para as tarifas serem aplicadas, elas devem ser validadas e aprovadas pelo Congresso”, observa.
Trump apelará à Seção 301
Queiroz ressalta, ainda, que o governo Trump “já vinha trabalhando com esse cenário” e tentará assegurar a aplicação das tarifas por meio da Seção 301.
“Pelas sinalizações recentes, ele (Trump) vai usar a Seção 301 – e aí, sim, ele teria essa autonomia e não dependeria do Congresso.
Este deve ser o caminho.
Algumas tarifas devem cair de imediato e outras serão mantidas”, avalia.
A Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 é um instrumento legal dos EUA que permite ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) investigar e retaliar práticas comerciais de outros países consideradas injustas, discriminatórias ou restritivas.
A legislação tem o objetivo de proteger interesses norte-americanos, resultando, frequentemente, na imposição de tarifas extras sobre produtos estrangeiros.
“O foco do governo neste momento é diminuir o rombo fiscal dos EUA usando o comércio global para trazer fontes de receita e arrecadação”, afirma Queiroz.
Em relação aos impactos sobre o mercado financeiro, Queiroz afirma: “A depender da evolução dessas questões tarifárias, pode haver um impacto permanente e duradouro no mercado.
Neste primeiro momento, a reação foi positiva.
Mas, no futuro, é necessário monitorar todas as implicações e os desdobramentos dessa decisão da Suprema Corte”.
📊 Informação Complementar
Outro fator importante a se considerar nessa equação, diz o analista, é o componente político-eleitoral nos EUA.
“As eleições de meio de mandato também devem ser monitoradas pelo mercado, para vermos como ficará o equilíbrio de poderes nas duas Casas (Câmara e Senado) do Congresso norte-americano”, conclui.
O que disse a Suprema Corte sobre o tarifaço
O presidente da Suprema Corte, John Roberts, citou decisões anteriores do tribunal e disse que Trump deve “apontar para uma autorização clara do Congresso” para justificar o tarifaço.
O caso foi levado à análise do Supremo após uma ação apresentada por empresas afetadas pelas tarifas e por 12 estados norte-americanos.
A decisão representa um revés significativo para a Casa Branca, ao atingir um dos pilares da política externa e da agenda econômica de Trump, marcada pela defesa de barreiras comerciais como instrumento de pressão diplomática e proteção da indústria nacional.
A derrubada do tarifaço também afeta o Brasil.
Em abril de 2025, ao lançar o pacote de “tarifas recíprocas”, Trump impôs uma sobretaxa de 10% sobre produtos brasileiros importados pelos EUA.
Três meses depois, ampliou a pressão comercial ao anunciar um novo aumento de 40%, elevando a tarifa total para 50%.
Apesar do endurecimento do discurso, a medida veio acompanhada de uma extensa lista de exceções.
Fonte: metropoles
20/02/2026 13:59











