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Luta pelo luto: a angústia de quem busca por familiares desaparecidos

5 de abril de 2026
in Brasil, SAÚDE, SEGURANÇA
Home Brasil
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Luta pelo luto Famílias buscam, por anos, respostas sobre desaparecidos em São Paulo e vivem com a dor da incerteza Em uma noite chuvosa de sábado, na antevéspera do Natal, Fabiana saiu de casa para comemorar o aniversário de uma amiga a uma quadra de distância.

Nunca voltou.

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Em uma sexta-feira, Samuel foi a uma festa onde encontraria o irmão.

Antes de sair, avisou à mãe que, na volta, colocaria as roupas lavadas para secar.

A máquina permaneceu intacta, como ele deixou.

Em uma terça-feira, Thiago contou à mãe que iria ao hospital porque sentia uma forte dor de cabeça.

Saiu sozinho.

Essa foi a última lembrança que permaneceu.

Fabiana, Samuel e Thiago acabaram reunidos em um lugar que jamais escolheram ocupar: as estatísticas de desaparecimento em São Paulo.

No estado, mais de 50 pessoas são registradas como desaparecidas todos os dias, em média, segundo levantamento do Metrópoles.

Entre janeiro de 2020 e junho de 2025, foram 102.185 boletins de ocorrência de casos de desaparecimento.

Por trás dos números, existem famílias que são forçadas a viver na ausência.

A espera deixa de ter prazo, e a busca passa a ser uma rotina que não admite descanso.

Em meio à angústia, mães e pais se reinventam.

Entre o tempo que congela, o tempo que revela e o tempo que transforma, o desaparecimento cria uma coreografia própria.

Nela, famílias transitam entre esperança, exaustão e reinvenção.

Algumas continuam procurando.

Outras enterram.

Outras transformam a busca em movimento coletivo para que novas histórias não se repitam.

O DIA QUE NÃO TERMINOU
O desaparecimento de José Thiago Honório da Silva, aos 22 anos, ficou marcado por uma data precisa e por uma dor que não avança.

Desde 4 de setembro de 2023, a mãe dele, Aparecida Inácio da Silva, 48 anos, vive remoendo esse flash.

Um frame imóvel.

Uma história interrompida que nunca encontrou desfecho.

Na manhã em que a reportagem a encontrou, ela vestia uma camiseta branca, com a foto do filho estampada e a palavra “desaparecido” em destaque.

Segurava a barra do tecido com a ponta dos dedos, como quem tenta manter firme algo que já não se sustenta.

“A gente não tem mais vida depois disso”, diz, com o olhar preso à imagem do filho.

Thiago saiu de casa dizendo que iria ao médico, no Hospital Pirituba, na zona norte da capital paulista.

No caminho, seguiu até a Lapa, na zona oeste.

Por volta das 18h30, ligou pedindo R$ 30 via Pix, algo que, segundo a mãe, ele sabia que ela não conseguiria fazer sozinha.

Quando Aparecida recebeu ajuda para enviar o dinheiro, ele respondeu que não precisava mais, “tinha resolvido a questão".

Silêncio.

À noite, entre 22h e 23h, Thiago não atendeu às chamadas da mãe.

Na manhã seguinte, o quarto do rapaz permanecia arrumado, exatamente como ela havia deixado.

Às 10h10, Aparecida fez outra ligação.

Foi a última tentativa antes de o telefone parar de completar as chamadas.

Depois disso, o silêncio se impôs — no celular e na busca por respostas.

No dia seguinte, Aparecida e a filha registraram boletim de ocorrência.

O atendimento, segundo ela, foi desanimador.

“A gente ouviu: ‘ele está por aí’.

Só isso.”
A partir dali, a mãe passou a procurar por conta própria.

Percorreu delegacias, unidades do Instituto Médico Legal (IML), hospitais, terminais de ônibus e praças.

Tentou, sem sucesso, acesso a imagens de câmeras de monitoramento.

Pediu ajuda a emissoras de televisão.

Conversou com conhecidos do filho.

“Eu fui atrás até do PCC [Primeiro Comando da Capital].

Onde você imaginar, fui.”
Nenhuma pista ajudou.

Ela também cedeu amostras de DNA à Polícia Científica de São Paulo, caso fosse necessário identificar corpos não reconhecidos.

Aparecida afirma que Thiago vinha sofrendo abordagens e agressões policiais desde os 12 anos.

“Meu coração diz que o meu filho não está mais vivo.

Eu posso estar enganada, mas acho que quem deu fim ao meu filho foi a polícia."
Um mês antes de desaparecer, ele chegou em casa com o pé inchado e o pescoço ralado.

Disse que havia se machucado jogando bola.

Depois do desaparecimento, amigos contaram à mãe que ele teria sido espancado por dois policiais militares das Rondas com Motocicletas (Rocam), perto de casa, por volta das 19h.

Após o episódio, Thiago passou quase um mês sem sair.

Saúde mental e o limite dos 10 dias
Diagnosticado com esquizofrenia, Thiago havia sido internado no fim da pandemia e, depois da alta, passou a usar medicação contínua.

Quando recusava os remédios, a mãe escondia os comprimidos na comida.

“O médico disse que ele só podia ficar 10 dias sem.

Depois disso, corria risco de vida.

E também podia se colocar em perigo.”
A contagem desses dias virou uma fronteira emocional para Aparecida.

“Até os 10 dias, tinha esperança dele vivo.

Depois…”, diz, sem concluir a frase.

Desde então, Aparecida parou de cozinhar, não comemora datas e não monta mais árvore de Natal.

“Não existe nada festivo para nós”, afirma.

No quarto da mãe, ao lado do travesseiro, repousa um dos poucos objetos deixados por Thiago que ela ainda consegue tocar: uma almofada de pelúcia em formato de coração, vermelha, com a frase “eu te amo”.

Foi um presente simples entregue por ele no Dia das Mães, três anos antes do desaparecimento.

“Esse aqui dorme comigo”, afirma, protegendo o objeto como quem tenta preservar um gesto do filho.

Aparecida segura o item com força, como se temesse que a memória lhe escapasse.

“Todo dia ele me abraçava e dizia que me amava”, conta.

O dia 4 de setembro de 2023 foi o único em que as palavras não foram ditas.

Ao lembrar disso, ela abaixa a cabeça e repete, como se tentasse costurar o tempo: “Faltou o abraço.

Faltou o ‘eu te amo’.”
Para algumas famílias, o desaparecimento transforma o tempo em espera sem fim.

Para outras, o tempo devolve respostas, mas estas chegam tarde demais.

A RESPOSTA QUE CHEGA TARDE
Aos 19 anos, Samuel Andrade tinha apenas dois dias da primeira habilitação de motorista.

Estava contente e cheio de planos: havia sido aprovado em um curso profissionalizante e falava em trabalhar com informática.

Os familiares o descrevem como um jovem reservado, caseiro, vaidoso e muito apegado à mãe.

“Para mim, era como se fosse uma criança.

Apesar dos 19 anos, sempre foi o meu bebê.

Muito ‘minha saia’, muito colo.

Ele era muito grudado”, conta Emília, 66.

“Ele não tinha vício, não bebia.

Ia lá e tomava uma coca, uma água”, descreve o pai, Sandro, 59.

📊 Informação Complementar

O dia 8 de dezembro de 2017 foi o último em que Sandro e Emília viram Samuel.

À tarde, o jovem colocou um tênis da Nike que tinha acabado de ganhar de presente da mãe e saiu com um amigo para tomar açaí em um local a cinco minutos de casa.

Depois, avisou que seguiria para uma festa onde o irmão, Júnior, já estava.

O pai percebeu a ausência de Samuel ao amanhecer, quando encontrou apenas Júnior no quarto.

Estranhou também um acidente visto no caminho ao trabalho — um jovem caído na calçada — e sentiu um pressentimento.

Ainda no dia 9, a família registrou boletim de ocorrência e iniciou uma busca frenética em hospitais, delegacias e IMLs.

Júnior percorreu o bairro em busca de câmeras de segurança até localizar imagens do irmão.

Nelas, Samuel aparece caminhando sozinho e passando direto pela rua de casa.

Outras gravações, encontradas dias depois, ajudaram a reconstituir um trajeto de três quilômetros.

A polícia chegou a recuperar o celular do jovem, já vendido, mas nenhum indício concreto explicava o desaparecimento.

“Quando você tem uma questão de desaparecimento, precisa de agilidade.

Começa a correr contra o relógio”, avalia Sandro.

“Os pertences dele não foram encontrados, mas o celular tinha sido vendido dois dias depois.

A delegacia tinha uma pista ali.”
Em meio à busca, a família passou a receber ligações com tentativas de golpe.

Criminosos usavam o número de telefone divulgado nos materiais de procura e simulavam falsos sequestros para pedir dinheiro.

O inquérito policial foi instaurado apenas em 2019, cerca de dois anos após o desaparecimento, e arquivado em 2020, no auge da pandemia.

A decisão causou indignação na família.

“Não achei justo”, afirma Sandro.

Lei 13.812/2019 Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas Lei que instituiu a Política Nacional de Busca e criou o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas (CNPD)DEFINIÇÃO DE PESSOA DESAPARECIDA ESTRUTURA DO CADASTRO NACIONAL – Banco Público Informações e fotos acessíveis na internet – Banco Sigiloso Dados de investigação, BO, contatos da família – Banco Genético Sigiloso Perfis genéticos da pessoa e familiares DIVULGAÇÃO DE INFORMAÇÕES – Poder público pode divulgar fotos e dados – Para menores: exige autorização dos responsáveis – Para adultos: divulgação quando houver indício de crime – Permite parcerias com empresas e mídia DEVERES DAS AUTORIDADES – Registro imediato no CNPD – Comunicação entre órgãos de segurança – Investigação iniciada de imediato – Continuidade da investigação até localização – Comunicação ao Conselho Tutelar (se for menor) Uma reviravolta ocorreu em outubro de 2024, quando, após pressão política do deputado estadual Enio Tatto (PT), um novo investigador assumiu o caso.

Ele identificou um corpo com características compatíveis com as de Samuel.

Devido a falhas sistêmicas e à falta de cruzamento de dados, os parentes não sabiam, mas Samuel estava enterrado como indigente havia sete anos.

Os mesmos sete anos de busca intensa, marcados pela angústia e pelo surgimento de doenças crônicas nos pais, como hipertensão e diabetes.

A família buscou a Defensoria Pública para acompanhar o processo.

Começaram, então, meses de espera pela confirmação de que aquele corpo localizado era mesmo de Samuel.

“A gente acaba deduzindo que no dia que ele desapareceu já tiraram a vida dele”, lamenta Sandro.

Em fevereiro de 2025, o pai foi ao Cemitério de Perus para acompanhar o procedimento de exumação.

“Ali morreu 50% de mim”, diz.

A confirmação veio por meio de exame de DNA, informado à família em 4 de junho de 2025.

O laudo apontou como causa da morte asfixia mecânica por afogamento.

A perícia também identificou perda de dentes e fratura no maxilar.

A Defensoria Pública auxiliou na retificação do atestado de óbito de Samuel e no translado do corpo para o cemitério Memorial Parque Paulista, em Embu das Artes, na Grande São Paulo.

A família aponta descaso na investigação inicial.

“Quando chegou na parte do encontro do corpo, a negligência foi a mesma.

Cabia ao SBO [Setor de Busca e Ocorrências] informar à delegacia, cabia ao IML informar à delegacia, cabia à delegacia procurar informação ali.

A negligência foi em todos os órgãos”, afirma Sandro.

“Não estou aqui para apontar o dedo para ninguém, mas negligentes foram todos.”
Desde o início, o pai reuniu mais de 100 páginas de documentos sobre o processo de busca por Samuel.

Agora, sabendo que o filho está morto, ele ainda aguarda respostas sobre o que ocorreu há sete anos.

O desaparecimento deu lugar à busca por justiça.

Para Emília, a descoberta de que o filho havia sido enterrado como indigente marcou uma despedida, ainda que tardia.

Sandro, no entanto, encontrava fé na incerteza.

“É um flagelo a busca pelo ente querido desaparecido.

Mas eu preferia estar na busca ainda, porque eu tinha esperança.

Eu preferia a incerteza.”
Quando o corpo é encontrado, o desaparecimento não termina.

Ele muda de forma.

Quando não é, algumas famílias transformam a ausência em travessia coletiva.

A AUSÊNCIA QUE VIROU MOVIMENTO
Em 23 de dezembro de 1995, Fabiana Espiridião, 13 anos, saiu de casa para dar um rápido abraço de aniversário em uma colega.

Vestia uma regata branca com listras laranja, short cinza e chinelo.

“Vinte minutinhos”, calculou a mãe, Ivanise Espiridião da Silva Santos, considerando o trajeto de ida e volta pelas ruas de Pirituba, zona norte de São Paulo.

No dia seguinte, ela iniciaria uma busca que jamais terminaria.

Uma busca que, anos depois, se transformaria no mais emblemático movimento de familiares de desaparecidos do Brasil.

Desde as primeiras horas, o desaparecimento de Fabiana expôs o despreparo do Estado diante desse tipo de ocorrência.

Na madrugada do sumiço, ao procurar ajuda em uma delegacia, a mãe ouviu que a filha provavelmente estaria “com algum namoradinho”.

Sem atendimento, voltou para casa.

Horas depois, retornou à unidade policial e ali aguardou cerca de quatro horas até ser recebida por uma delegada, a quem descreve como “extremamente arrogante”.

Ao concluir o registro do boletim de ocorrência, a delegada desenhou um círculo no papel, indicando que Ivanise procurasse o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).

Era véspera de Natal.

A delegacia especializada, responsável por investigações de desaparecimento, estava fechada.

Desde então, datas comemorativas deixaram de existir para Ivanise.

Seguiram-se dias e noites de peregrinação por matas, vielas, delegacias e hospitais.

Vieram também semanas visitando Institutos Médicos Legais.

Geladeiras metálicas eram abertas diante dela, revelando corpos irreconhecíveis.

“Tive que ver cinco mulheres assassinadas das formas mais bárbaras.

Saí dali exausta, em conflito com Deus”, lembra.

Fabiana não estava entre elas.

Nenhuma resposta estava.

Quase três meses depois, Ivanise recebeu um telefonema inesperado.

Do outro lado da linha, a autora Glória Perez informava que incluiria depoimentos reais de mães de desaparecidos na novela Explode Coração, exibida pela Rede Globo.

Clique e assista os relatos dos familiares
Quando a novela foi ao ar, o silêncio que cercava Fabiana foi substituído por uma avalanche de vozes.

No dia seguinte, o telefone de Ivanise não parou mais.

“Eram mães, pais, filhos, produção de TV, jornalistas.

Todo mundo ligava”, recorda.

Sem estrutura alguma, ela escolheu as escadarias da Catedral da Sé, palco histórico de manifestações, missas campais, gritos coletivos por democracia, como o Comício das Diretas Já, em 1984, no coração da maior cidade da América Latina.

No domingo, 31 de março de 1996, Ivanise chegou ao local e viu as escadarias tomadas.

Sob o sol forte daquela manhã, mães e pais exibiam fotografias amassadas guardadas em carteiras, cartazes improvisados, bilhetes e recortes de jornal.

Ali, sem planejamento, nascia um movimento.

A imprensa apareceu em peso.

O nome do grupo surgiria horas depois.

No programa dominical Fantástico, o jornalista Pedro Bial sacramentou que nascia ali, em São Paulo, um "as Mães da Sé".

A expressão se consolidou e se transformou em símbolo nacional da luta por respostas.

Nos primeiros anos, o movimento funcionou na sala da casa de Ivanise, ocupada por cartazes e fotografias de desaparecidos.

O engajamento veio com um preço.

O marido reclamava que "só tinha uma filha desaparecida" e criticava o trabalho da então esposa em "inventar de procurar os filhos dos outros.” O casamento de 23 anos terminou.

Quase três décadas depois, a mobilização iniciada naquela sala doméstica deu origem à Associação Brasileira de Busca e Defesa à Criança Desaparecida (ABCD), hoje presidida por Ivanise.

A organização é reconhecida pela pressão por políticas públicas, pelo apoio jurídico e psicológico a famílias e pela articulação nacional na busca por desaparecidos.

Apesar das conquistas institucionais, o desaparecimento permanece como uma ferida aberta.

“Viver a dor do desaparecimento é mil vezes pior que a dor da morte”, afirma Ivanise.

“Se eu tivesse enterrado minha filha, talvez já tivesse me acostumado com a ideia de nunca mais vê-la.

O que dói é não saber o que aconteceu.” Ela faz uma pausa antes de concluir: A ENGRENAGEM DO DESAPARECIMENTO O desaparecimento súbito de um ente querido impõe às famílias um tipo específico de sofrimento: imponente, que suspende a realidade.

É assim que o psiquiatra André Botelho, do Hospital Sírio-Libanês, define o impacto psicológico provocado nesses casos.

A ausência de fechamento expõe familiares ao transtorno do luto prolongado (TLP).

Sem corpo ou sem ritual de passagem, “é como se vivêssemos um luto de algo que está incertamente perdido”, define Botelho.

Quando o luto se prolonga, os prejuízos atravessam todas as dimensões da vida.

Relações sociais se retraem, trajetórias profissionais são interrompidas e a saúde física e mental se deteriora.

“São pessoas que acabam se fechando dentro desse circuito da procura.

A única esperança é achar essa pessoa desaparecida, e vão entrar, então, num quadro de uma dependência excessiva dessa figura que se perdeu”, afirma o psiquiatra.

Mesmo quando há desfecho, o impacto não se encerra.

“É preciso nomear esse trauma, é preciso tratar esse trauma."
O cuidado especializado inclui acompanhamento psiquiátrico nos casos de sintomas graves, com possível medicação, mas o tratamento de base são as psicoterapias, responsáveis por permitir a reelaboração simbólica da perda.

Quando vidas viram números
Ao todo, 102.185 pessoas desapareceram no Brasil entre 2020 e junho de 2025.

Média de desaparecimentos: 18.579 casos por ano e 2 a cada hora, no estado de São Paulo Definição de raça apontada nos boletins de ocorrência de desaparecimentos em São Paulo entre 2020 e junho de 2025 Definição de sexo apontada nos boletins de ocorrência de desaparecimentos em São Paulo entre 2020 e junho de 2025 Definição da idade apontada nos boletins de ocorrência de desaparecimentos em São Paulo entre 2020 e junho de 2025.

Total com idade registrada: 100.288 pessoas Regiões com o maior número de desaparecimentos registrados em São Paulo (2020 a junho de 2025) Total com região registrada: 102.185 pessoas Entre janeiro de 2020 e junho de 2025, a capital paulista registrou 29.695 desaparecimentos, uma média de 15 por dia.

Os casos concentram-se, principalmente, nas zonas sul e leste da capital, em distritos populosos e marcados por vulnerabilidades sociais.

Grajaú lidera o ranking, seguido por Capão Redondo, Cidade Tiradentes, Brasilândia, Jardim Ângela, Cidade Ademar e Santana.

O padrão evidencia a sobreposição entre densidade populacional, desigualdade social e incidência de desaparecimentos.

No país, o fenômeno também é expressivo.

Apenas em 2024, foram registrados 81.873 desaparecimentos, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025.

Em média, quatro notificações por hora.

Por trás de cada número, há uma história interrompida.

E outras tantas vidas reorganizadas ao redor de uma ausência.

Desaparecimentos em São Paulo
A COMUNIDADE QUE SE UNE E PROCURA
Um dos principais mecanismos de busca por desaparecidos é a divulgação pública.

É por meio dela que as pistas costumam surgir.

Desde 2021, uma parceria entre a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania e o Metrô de São Paulo exibe semanalmente fotos e informações de cinco pessoas desaparecidas nos monitores das linhas 1-Azul, 2-Verde e 3-Vermelha.

Com o avanço da tecnologia e a chegada da inteligência artificial, passou a ser possível realizar projeções de progressão de idade, simulando como estariam hoje pessoas desaparecidas há anos.

Em 2024, uma campanha do Grupo Piracanjuba, realizada em parceria com a associação Mães da Sé, levou imagens de desaparecidos para embalagens de produtos.

A iniciativa transformou prateleiras de supermercados em vitrines de busca coletiva, ampliando o alcance das informações.

Quem procura quando a polícia falha Em 2007, Darko Vieira Cristiano chegou ao primeiro dia de trabalho no serviço de abordagem a pessoas em situação de rua, da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, com uma função simples: encaminhar pessoas para abrigo, providenciar documentos e escutar histórias breves antes de seguir para a próxima esquina.

Bastaram algumas horas para perceber que, por trás daquele trabalho, existiam lacunas profundas.

E, nelas, vidas desapareciam.

Durante uma abordagem, tentou conversar com um homem que dizia esperar uma “namorada jornalista famosa”, em claro estado de surto psicótico.

A colega que o acompanhava reagiu imediatamente: Darko descobriria depois que o número era o código informal para pessoas com transtornos mentais, frequentemente evitadas pelas equipes por medo de gerar ocorrências complexas.

Darko percebeu que muitos dos “13” não eram apenas pessoas em delírio, mas estavam desaparecidas.

Foi assim que passou a improvisar estratégias para se comunicar e criar vínculo com quem estivesse em delírio.

O caso mais emblemático foi o da mulher que acreditava ter um chip implantado pela máfia.

Para tentar ganhar a confiança dela, Darko assumiu outra identidade.

“Quer saber a real?

Sou do esquadrão antimáfia”, confidenciou.

Com uma lanterna, que apresentou como “bloqueador de sinal”, convenceu a mulher a acompanhá-lo até um hospital psiquiátrico, apresentado como “laboratório” onde conversariam com “um cientista”.

Dias depois, medicada e estável, a mulher conseguiu dizer o próprio nome.

A família foi então localizada.

Ela estava desaparecida havia 10 anos.

Com o tempo, sempre que surgia um caso difícil, colegas repetiam a mesma frase:
“Chama o Hunter.”
O apelido virou identidade profissional.

Surgia Darko Hunter, conhecido como caçador de desaparecidos.

Com recursos improvisados, como um celular antigo e uma lista telefônica, ele passou a construir redes de localização que, anos depois, ajudariam a estruturar o sistema municipal de alerta de desaparecidos.

Atualmente, Darko Hunter coordena ações que cruzam dados do Cadastro Único, do sistema de acolhimento social e de atendimentos de saúde para localizar pessoas desaparecidas.

Ele também foi responsável por iniciar a parceria com o Instituto Médico Legal Central para cruzamento de dados entre corpos não reclamados e famílias em busca de parentes.

Entre reencontros e identificações tardias, ele insiste em tratar cada caso como único.

Porque, segundo ele, em qualquer esquina pode estar alguém esperando ser encontrado.

Com seu método de busca, ele tenta costurar essas pontas soltas, usando equilíbrio emocional e criatividade para ouvir, investigar, imaginar, acreditar.

Às vezes, inventar histórias para salvar vidas e continuar, como sempre fez, atendendo cada caso como se fosse o primeiro.

Porque sempre há a possibilidade de se encontrar alguém esperando pela ajuda que nunca chegou.

DA NOTIFICAÇÃO AO (NEM SEMPRE) DESFECHO
A partir do momento em que se identifica o possível desaparecimento de um indivíduo, um boletim de ocorrência deve ser aberto de forma imediata.

A notificação pode ser feita por qualquer pessoa próxima que forneça um relato fundamentado.

É o que explica Fabiano Rueda, da 5ª Delegacia de Pessoas Desaparecidas, do DHPP em São Paulo.

Segundo Rueda, um B.O.

registrado em qualquer distrito policial da cidade de São Paulo chega à Delegacia de Desaparecidos em menos de 24 horas.

Em casos de desaparecimento envolvendo criança, adolescente ou pessoa com deficiência, o responsável pelo registro e o Centro de Comunicações e Operações da Polícia Civil (Cepol) devem comunicar imediatamente a ocorrência à Polícia Federal, aos portos, aeroportos, terminais rodoviários, ferroviários, às polícias rodoviárias — federal e estadual — e às companhias de transporte intermunicipais, interestaduais e internacionais da região da ocorrência.

Atualmente, em qualquer episódio de desaparecimento, as primeiras diligências incluem verificação em hospitais, escolas, unidades do IML, abrigos, presídios e rastreamento de movimentações financeiras e de telefonia.

Após análise de gravidade, a polícia pode instaurar um inquérito policial (IP) ou um procedimento de investigação de desaparecimento (PID), que permite a continuidade das buscas mesmo após encerramentos formais.

“Nos casos mais graves, a gente pode até terminar o inquérito policial com um resultado não conclusivo, mas isso não quer dizer que as diligências acabam.

O PID continua em aberto até a gente ter novas informações”, afirma o delegado Fabiano Rueda.

Desaparecimento como fenômeno social Para a pesquisadora Simone Rodrigues, coordenadora do Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil (ObDes), da Universidade de Brasília (UnB), o desaparecimento costuma ser interpretado sob uma ótica que responsabiliza as famílias.

“Há uma disputa de narrativa que devolve aos parentes a culpa pelo desaparecimento”, afirma.

Para a pesquisadora, o fenômeno do desaparecimento deve ser visto como um problema estrutural.

“É uma questão que vai muito além de uma discussão sobre um criminoso que pegou a criança e levou, mas a gente tem que discutir pobreza, desigualdade, questões trabalhistas, questões educacionais”, explica a especialista.

Além disso, o desaparecimento atinge grupos frequentemente invisibilizados, como populações indígenas e pessoas em situação de rua.

Há também “desaparecimentos forçados” ligados à atuação de “tribunais do crime” e de violência policial; crimes sexuais; homicídios; tráfico de órgãos; e, eventualmente, tráfico humano motivado por adoções ilegais de crianças.

O Observatório trabalha, desde 2025, para construir um mapeamento qualitativo do fenômeno e subsidiar políticas públicas nacionais.

Desaparecimento forçado Embora não exista tipificação penal específica no Brasil, o desaparecimento forçado é reconhecido como fenômeno ligado à atuação do Estado ou à omissão institucional diante de crimes praticados por milícias, facções ou grupos de extermínio.

“O termo não significa apenas que alguém foi sequestrado.

Ele envolve a responsabilidade estatal, direta ou indireta”, explica Simone Rodrigues.

Sem legislação específica, esses casos acabam diluídos em outros tipos penais, como homicídio ou sequestro, dificultando a produção de estatísticas e políticas públicas.

Desaparecidos no brasil
Ao todo, houve um aumento de 31,05% nos registros de desaparecimentos no Norte do país entre 2018 e 2024.

Ao todo, houve um aumento de 41,45% nos registros de desaparecimentos no Nordeste do país entre 2018 e 2024.

Ao todo, houve uma queda de 13,46% nos registros de desaparecimentos no Centro-oeste do país entre 2018 e 2024.

Ao todo, houve um aumento de 6,2% nos registros de desaparecimentos no Sul do país entre 2018 e 2024.

Ao todo, houve uma queda de 4,07% nos registros de desaparecimentos no Sudeste do país entre 2018 e 2024.

Ao todo, houve um aumento de 4,58% nos registros de desaparecimentos no Brasil entre 2018 e 2024.

PAI SUMIU PROCURANDO FILHO DESAPARECIDO
Em maio de 2025, o desaparecimento de Cícero Supriano de Vasconcelos, 44, desencadeou outro.

O pai dele, Genésio Supriano de Vasconcelos, 85, saiu de casa para procurá-lo e também desapareceu.

Naturais de Pernambuco, ambos haviam chegado a São Paulo dois dias antes.

Cícero, diagnosticado com esquizofrenia, perdeu-se ao tentar visitar parentes.

Genésio, com falhas de memória e analfabeto, saiu para procurá-lo e também perdeu a referência do caminho.

Dias depois, pai e filho se reencontraram por acaso, sentados em uma praça.

Sem conseguir retornar, passaram a vagar juntos pela zona norte da cidade, dormindo em papelões e sobrevivendo de ajuda ocasional.

O reencontro com a família aconteceu dez dias depois, com auxílio de Darko Hunter.

Invisibilidade e subnotificação
Segundo famílias atingidas, o desaparecimento ainda é tratado com uma invisibilidade muito grande.

“É como se os nossos filhos fizessem parte apenas de uma estatística”, afirma Ivanise Espiridião, fundadora do Mães da Sé.

De acordo com a pesquisadora Simone Rodrigues, apesar de os números serem alarmantes, o que os dados mostram é apenas “uma ponta do iceberg”.

O desaparecimento é um problema muito mais amplo e complexo.

“As estatísticas estão muito focadas no boletim de ocorrência.

E a gente tem uma enorme subnotificação, porque muitos grupos não abrem boletim de ocorrência, não só porque não sabem qual é o caminho, mas pelo próprio contexto.

Por exemplo, o desaparecimento pode estar envolvido com agentes de segurança pública, milícias, facções, ou se aconteceu no campo e as pessoas não têm tanto acesso à informação”, detalha a professora de direito.

Famílias de desaparecidos também se queixam do tratamento que recebem em delegacias de bairro.

A falta de preparo e o pré-julgamento, relatam, são problemas crônicos.

Frases como “sua filha deve estar com um namoradinho”, como a ouvida por Ivanise, “vagabundo é assim mesmo” ou “ele está por aí”, como foi dito a Aparecida, são comuns e demonstram falta de interesse inicial das autoridades.

O delegado Fabiano Rueda sustenta que, em São Paulo, no DHPP, o atendimento humanizado já é uma realidade.

“É só a gente se colocar na pele de uma mãe ou de um pai que tem um filho desaparecido que a gente pode sentir a comoção, a aflição que essa pessoa tem.” A tentativa de unificar dados Uma das principais demandas das famílias é a integração nacional de registros.

Segundo o governo federal, medidas estão em andamento com o lançamento, em agosto de 2025, do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas (CNPD).

Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), o projeto teve início em março de 2021, com a criação de um grupo de trabalho responsável por definir requisitos e regras, culminando, em 2023, na implementação de uma ferramenta tecnológica para auxiliar nas buscas.

Em relação a São Paulo, o MJSP informou ao Metrópoles que ainda não houve formalização de um acordo de cooperação técnica necessário para a integração dos dados ao CNPD, que depende somente da “manifestação de interesse” da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos).

“A adesão à plataforma Amber Alert Brasil está em tratativas com o Ministério da Justiça para que a proposta atenda plenamente às particularidades do estado [São Paulo], que dispõe de um dos bancos de dados mais completos do país, com acesso disponível a todas as delegacias e emissão imediata de alertas após o registro de desaparecimento”, relatou, em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP).

ONDE TERMINA A BUSCA
O desaparecimento raramente tem tempo e espaço definido.

Em São Paulo, onde dezenas de pessoas são registradas como desaparecidas todos os dias, a ausência não é apenas estatística policial.

Ainda que histórias diferentes, o caminho é quase sempre o mesmo: não se permitem despedidas formais, tampouco se oferecem rituais claros, qualquer que seja o desfecho.

Apesar dos avanços tecnológicos, das campanhas de conscientização e das redes que tentam costurar respostas, o número de desaparecidos no Brasil escancara um vazio institucional, com políticas ainda fragmentadas.

Especialistas alertam que enfrentar o desaparecimento significa também enfrentar desigualdades históricas.

Significa discutir vulnerabilidade social, acesso a serviços básicos, saúde mental, violência estrutural e ausência do Estado em territórios periféricos e populações invisibilizadas.

Do trabalho improvisado de figuras como Darko Hunter às iniciativas de integração nacional de dados, o país ensaia respostas para um fenômeno que exige articulação entre segurança pública, assistência social, saúde, educação e participação comunitária.

Porque desaparecer não deveria significar ser apagado.


Fonte: metropoles

05/04/2026 06:50

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