Retratações públicas por “incorreção política” são uma espécie de marca universal das autocracias.
Nos tempos duros da União Soviética, uma crítica a Stalin rendia uma expiação pública, e depois coisa pior.
Em Cuba, nos anos setenta, ficou famosa a “retratação” do poeta Heberto Padilla, por suas críticas à ditadura castrista, que levou a ruptura de tantos intelectuais com Fidel, como Llosa e Octavio Paz.
Me lembro disso quando vejo o País bizarro em que vamos nos convertendo.
País que exige uma retratação pública de uma cantora de Axé, a Claudia Leitte, por cantar “meu rei Yeshua”, ao invés de “rainha Iemanjá”, na música “Caranguejo”, num show de verão.
🔍 Detalhes Importantes
Retratação e multa de 2 milhões.
Claudia trocou as palavras por sua religiosidade.
Porque fazer isso é um direito seu, garantido pela Constituição.
Se os autores quisessem mover um processo de direitos de autor, ok.
Mas não o Estado.
O Brasil não tem religião oficial, e nem o Estado um mandato para se intrometer nas escolhas religiosas das pessoas.
Este caso vai em linha com a ação movida pela AGU contra uma produtora de vídeos pelo documentário sobre o julgamento de Maria da Penha.
Cidadãos são livres para produzir suas interpretações sobre a história.
O próprio Supremo foi nesta linha quando garantiu a liberdade para as biografias.
É evidente que qualquer pessoa que se sentir ofendida pode mover um processo.
São os crimes contra a honra.
O absurdo é o Estado congelar uma visão da história, num exercício à la Orwell, no 1984, e mandar punir qualquer desviante.
Se a moda pega, qualquer releitura histórica seria um crime em potencial.
Que tal contar a história de Tiradentes de um jeito pouco respeitoso?
E um filme satirizando Carlota Joaquina?
Alguém se lembra de uma coisa dessas?
De um País irreverente, em que mesmo a sátira politicamente incorreta fazia algum sentido?
Caso similar ocorreu no sul do País.
A Universidade de Caxias, privada, fez um memorial com um acervo do ex-presidente Geisel.
Não era proselitismo político, mas uma exposição histórica, na biblioteca.
Adivinhem?
Ação do Ministério Público para proibir, multa de R$ 1 milhão e obrigação de colocar no lugar uma mostra sobre as vítimas da ditadura.
Muita gente acha ótimo estas coisas.
📊 Informação Complementar
Um leviatã gigante pairando sobre o País, higienizando nossa cultura de tudo que é coisa ruim.
A história errada, palavra errada, piada errada, exposição errada, filme errado, religião errada.
Um belo país, vamos nos tornando.
O País da liberdade sem erro.
Do Estado tutor da nossa cabeça.
Como gosto de história, me lembrei da França de Luiz XIV, depois de Fontainebleau.
O catolicismo oficial, os reformados e outros errados celebrando seu culto às escondidas.
Quem sabe seja nosso destino.
Cantar o “Caranguejo” baixinho, do jeito que se deseja, à luz de velas, pra ninguém notar.
De minha parte, quero distância desse destino.
Liberdade sem a chance do erro não é liberdade.
Que a gente possa refletir sobre isso são meus votos, neste quase 2026.
Fonte: estadao
27/12/2025 19:29











