CBF traz inovações ao futebol sem deixar de empoderar cartolas ligados a lideranças políticas Gestão de Samir Xaud adota medidas para modernizar o futebol em um esforço para reconstruir imagem de entidade marcada por desorganização e escândalos.
BRASÍLIA E SÃO PAULO – O diretor-geral do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), Francisco Schertel Mendes, tornou-se, no mês passado, vice-presidente da federação de futebol do Mato Grosso (MT).
Filho do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o novo “cartola” foi eleito em uma chapa liderada por um assessor de deputado estadual que presidia o tribunal desportivo local e surgiu inicialmente como terceira via.
A briga pelo controle da Federação Matogrossense de Futebol (FMF) foi influenciada ainda por Luís Otávio Veríssimo, presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).
Leia também Advogado, Veríssimo foi secretário-geral da Câmara sob a presidência de Arthur Lira (PP-AL) e chegou à presidência da Corte desportiva superior com o apoio do grupo que controla a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
O peso da confederação também influenciou o pleito em favor do grupo vencedor.
Com o mandato de cartola, Francisco Mendes passou a atuar abertamente como tal e tem chamado a atenção de dirigentes de federações e de clubes por trocar uma atuação discreta de bastidor por uma ação mais explícita em eventos do mundo da bola.
No início deste mês, ele liderou uma excursão com dirigentes de federações e de clubes por cidades de Inglaterra, Alemanha e Espanha.
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Nessas agendas, assumiu protagonismo e até fez discursos diante de outros cartolas, entre presidentes de clubes e membros de federações.
Recentemente, também deu entrevista a páginas de internet especializadas.
No Mato Grosso, Estado com pouco peso no futebol nacional, está por trás de anúncios da implementação do sistema de árbitro de vídeo (VAR) pela primeira vez no campeonato estadual e de um contrato de transmissão de todas as partidas da competição.
Na CBF, as principais iniciativas de modernização do futebol passam por indicados dele.
A família Mendes tem origem e negócios no Mato Grosso, mas Francisco vive e trabalha em Brasília.
Nos documentos da inscrição da chapa na entidade sediada em Cuiabá (MT), o filho de Gilmar Mendes informou o endereço na capital federal, a mais de mil quilômetros da capital mato-grossense.
A presidência da FMF será exercida pelo advogado Diogo Amorim Pécora, que desde janeiro de 2025 era assessor de gabinete na Assembleia Legislativa do deputado Chico Guarnieri (PRD), com salário de R$ 12 mil, e presidia o Tribunal de Justiça Desportiva do Mato Grosso.
Procurado para dar entrevista, ele marcou e desmarcou duas vezes.
Luís Otávio Veríssimo e Francisco Schertel Mendes também não quiseram dar entrevistas.
A uma rádio local, Pécora, de 35 anos, confirmou seu “alinhamento com a CBF” e disse que todas as suas decisões serão “colegiadas com o nosso grupo que foi montado e com a participação de todos os vices”.
A sete dias da eleição, realizada em 2 de dezembro, Pécora esteve com o presidente da CBF, Samir Xaud, em São Paulo, e saiu do encontro dizendo que tinha o apoio do chefe da confederação.
“Conseguimos receber e fidelizar o apoio do Samir para um projeto de renovação que será implementado na Federação Mato-grossense, seguindo a linha que ele vem fazendo a nível de Brasil, com muita capacidade, qualidade, mudando de fato a cara do futebol brasileiro”, disse à imprensa local.
A estreia do filho de Gilmar Mendes como dirigente de federação, subordinado a um desconhecido presidente e com o apoio do grupo majoritário da CBF, é mais um capítulo da aproximação do IDP com a entidade máxima do futebol que começou em agosto de 2023.
Naquele mês, foi fechado um contrato de dez anos para a instituição gerir a CBF Academy, braço da confederação que oferece cursos de formação e profissionalização no futebol.
Coube a Francisco Mendes a assinatura do contrato com o então presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues.
O filho do ministro vem exercendo cada vez mais influência nos bastidores da CBF, segundo uma série de relatos colhidos pela reportagem.
Em 2024, a CBF Academy arrecadou R$ 5,9 milhões.
Em 2023, a receita bruta foi de R$ 9,2 milhões.
O contrato estabelece que o IDP fique com 84% da receita, e a CBF, com os 16% restantes.
O número de 2025 não está fechado.
Sessões itinerantes
O presidente do STJD atuou pessoalmente no Mato Grosso em favor da chapa que teve Francisco Mendes como vice.
Além de agendas na federação e na Assembleia Legislativa em busca de apoio, inovou com uma sessão itinerante do pleno e de uma comissão disciplinar do tribunal em Cuiabá, em julho.
O ato, anunciado com um “formato inédito”, foi realizado sob o pretexto de “aproximar a justiça desportiva das diversas realidades regionais” serviu para Diogo Pécora, presidente do tribunal local, exibir prestígio.
As federações sentem-se lisonjeadas quando recebem sessões itinerantes do STJD.
Embora emissários de Samir Xaud, presidente da CBF, afirmem que a cúpula da confederação não se envolveu com o processo eleitoral, a estrutura da entidade máxima de futebol pesou a favor da eleição da chapa composta por Francisco Mendes.
Formalmente, a sessão itinerante do STJD foi solicitada por Luciano Hocsman, presidente da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), que também foi determinante para o grupo ganhar o controle do futebol no Mato Grosso.
Aliado de Xaud, Hocsman foi escolhido por ele como interventor na federação do MT, a partir de julho de 2025, depois que a disputa pela entidade mato-grossense foi judicializada.
Até então, o controle dela cabia a Aron Dresch.
Durante a intervenção, a CBF ofereceu cursos gratuitos para treinadores e árbitros via CBF Academy, levou dirigentes de times pequenos para formação no Rio de Janeiro e até ajudou a reformar a sede da federação.
Interlocutores da CBF afirmam que a atuação da CBF Academy se deu de forma ordinária, como ocorre em qualquer federação local, e não teve por objetivo influenciar o pleito.
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Até a chegada dos aliados de Xaud com a intervenção, a eleição girava em torno da disputa dos grupos de Aron Dresch e de João Dorileo Leal, ligados ao Cuiabá e ao Mixto, respectivamente, clubes do Mato Grosso.
No meio do processo, Diogo Pécora foi lançado candidato pela primeira vez e saiu vitorioso.
Aron não podia concorrer a uma nova reeleição e os Dresch decidiram apoiar o candidato que poderia barrar a ascensão de Dorileo, empresário e cartola do Mato Grosso.
Sobrinho de Aron e presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch atuou nos bastidores em favor da campanha de Diogo Pécora.
Segundo Cristiano, o esforço foi para “proteger a federação” e emplacar alguém que representasse “continuidade do trabalho” feito pelo tio dele.
Nos últimos anos, as campanhas do Cuiabá fizeram o time se destacar na primeira divisão do futebol.
Fundado em 2001, o clube disputou a Série A entre 2021 e 2024, ano em que foi rebaixado à Série B.
“Não existe outra federação que fez o trabalho que nós fizemos aqui.
Se não fosse alguém de continuidade, seria terrível, especialmente para o Cuiabá.
A gente entendia que o opositor era contra tudo o que a gente acredita”, afirmou.
Dorileo reclamou, na campanha, de que a federação foi usada para beneficiar o Cuiabá em detrimento de outros times e que a eleição foi totalmente influenciada pelo peso da CBF e do IDP.
Articulador da chapa vitoriosa, Cristiano disse ainda que partiu dele o convite a Francisco Mendes.
“Ele é um cara aqui do Estado, com um grande trabalho no IDP.
Trouxemos para agregar.
Mas se você perguntar aos nossos eleitores, ninguém votou na chapa por causa do Francisco”, justificou.
A atuação do ministro Gilmar Mendes, no STF, foi determinante para o deslocamento de poder na CBF.
Foi dele a decisão que, primeiro, manteve o então presidente da entidade, Ednaldo Rodrigues, após denúncias de fraude na eleição de 2022 apontadas em processo que começou no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
Também foi dele o despacho que pediu nova apuração sobre a situação de Ednaldo e devolveu o caso ao Rio de Janeiro, o que meses depois resultou no afastamento definitivo de Ednaldo Rodrigues.
O contrato do IDP, de Gilmar, com a CBF é de agosto de 2023.
O pedido de restituição de Ednaldo ao cargo foi apresentado em dezembro daquele ano.
Gilmar foi sorteado relator e em janeiro decidiu a favor do então presidente da entidade.
Mais tarde, ele teria dado aval ao acordo político que resultou na escolha de Samir Xaud como sucessor de Ednaldo, que acabou afastado em definitivo.
O entorno do ministro nega.
Fonte: estadao
29/01/2026 07:51









