Em meio a um embate político, o Maracanã pode ser posto à venda pelo estado A torcida é para que tudo ocorra dentro das quatro linhas Construído para a Copa do Mundo de 1950, o Estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã, foi alçado à condição de templo do futebol não apenas por ter sido durante décadas o maior do planeta, mas por abrigar páginas épicas da história dos gramados, entre o riso e o choro.
Ali foi o palco da até hoje dolorida derrota brasileira na final da Copa em que a arena de traços modernistas brotou na paisagem carioca — o traumático 2 a 1 para o Uruguai, conhecido como “maracanazo”, em 1950.
Também naquele campo o rei Pelé cravou o milésimo gol, em 1969, mesmo cenário do embate entre Alemanha e Argentina na final de outro mundial, o de 2014, em que os alemães, algozes do Brasil em um certo jogo de placar impronunciável, levaram a melhor.
Agora, em plena temporada pré-eleitoral, o velho e bom Maraca se vê em meio a uma disputa longe das arquibancadas e dentro das salas refrigeradas de políticos e cartolas de olho no icônico cartão-postal, que, além de emoções que só a bola na rede proporciona, pode render votos no pleito de outubro.
🔄 Atualizações Recentes
O que está na mesa é a possibilidade de o estádio ser privatizado, o que chegou a ser aventado em outras eras, sem ir adiante.
E já teria até comprador: o Clube de Regatas do Flamengo.
Em outubro passado, o Maracanã foi incluído por deputados estaduais de siglas de direita da base do governo Cláudio Castro (PL) em uma lista ao lado de 75 bens públicos menos vistosos cuja autorização para a venda pelo Executivo será votada na volta do recesso parlamentar.
Em uma conversa em que se discutiu o destino do estádio, no gabinete do então todo-poderoso presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, hoje afastado e investigado por um caso que o enreda nas engrenagens do crime organizado, estava presente até o presidente do clube rubro-negro, Luiz Eduardo Baptista, o Bap.
🌍 Contexto e Relevância
“Houve um consenso com o presidente do Flamengo, que é o maior interessado”, contou a VEJA Rodrigo Amorim (União Brasil), à frente do grupo de trabalho voltado para o tema.
A intenção declarada dos parlamentares é abastecer os cofres estaduais, abatendo a polpuda dívida com a União.
Nos bastidores, porém, gente que acompanha os movimentos nesse jogo que está mais para xadrez do que futebol garante que o projeto embute uma clara provocação ao prefeito (vascaíno) Eduardo Paes (PSD), no páreo para a cadeira de governador e que há tempos caminha em outra direção: entusiasta do projeto do Flamengo de ter casa própria para sua torcida, ele se articulou junto ao presidente Lula, que ajudou a destravar a compra de um terreno de 88 000 metros quadrados pelo time rubro-negro no Centro do Rio, em julho de 2024.
A área, em região cuja revitalização interessa ao alcaide, pertencia a um fundo gerido pela Caixa Econômica Federal e saiu por 140 milhões de reais, transação selada por Rodolfo Landim, o ex-número 1 do clube.
Paes se comprometeu inclusive a assumir custos estimados em 100 milhões de reais para retirar dutos de gás que restam no subsolo e são obstáculo às fundações.
Apesar de tamanha boa vontade, o novo estádio, a princípio previsto para 2029, agora é esperado para 2036 — se sair.
📊 Informação Complementar
Bap já teria confidenciado a pessoas de seu círculo próximo que acha mais vantajoso para o Flamengo arrematar o Maracanã do que erguer um estádio do zero, a um valor calculado na casa dos 3 bilhões de reais.
A peleja agita as rodas do poder, que sabem o quanto fazer feliz uma torcida tão numerosa pode ser trunfo eleitoral, e também a cartolagem.
Desde 2024, o Flamengo divide a gestão do Maracanã com o Fluminense, em uma concessão válida pelas próximas duas décadas que rende 20 milhões de reais ao caixa estadual.
Em contrapartida, os clubes precisam investir ali 188 milhões em melhorias.
A hipótese de o Flamengo comprar o estádio desagrada, claro, ao presidente do time tricolor, Mattheus Montenegro, que classificou como “equivocada” a ideia de incluí-lo no rol das privatizações.
Ele alega que a operação é rentável do jeito que está.
“A gestão tem contrato de concessão por mais vinte anos e pretende cumpri-lo”, afirmou a própria concessionária em nota a VEJA.
Procurado, Bap preferiu não se pronunciar.
A contenda põe em lados opostos do campo políticos de diferentes matizes.
Os defensores da privatização argumentam que o Maracanã traria uma bolada superior a 2 bilhões de reais, além de atrair investimentos àquela banda da cidade carente em infraestrutura, e ficaria sempre cheio, já que o Flamengo acumula um quarto de todos os torcedores no país.
“O essencial é não deixar o Maracanã morrer, o que pode acontecer se o clube rubro-negro tiver um estádio próprio”, diz o deputado Alexandre Knoploch (PL).
Mas nada é consenso aí, a começar pelas cifras.
“Estimo que o estádio custe bem mais do que estão falando”, alerta o também deputado Flávio Serafini (PSOL), contrário à venda.
“Estão usando o Maracanã para confrontar Paes”, dispara Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSD), aliado do prefeito.
E olha que a partida está só no início.
A VEJA, o governo estadual afirma que, quando a lista que inclui o estádio retornar ao Palácio Guanabara, irá examinar o “potencial de venda”.
A torcida é para que tudo ocorra dentro das quatro linhas e que o Maracanã siga fazendo história, sem que seja preciso levá-lo ao VAR.
Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978
Fonte: veja
17/01/2026 08:47











