O Global Risks Report 2026, nova edição do tradicional relatório divulgado pelo Fórum Econômico Mundial a partir de uma consulta a mais de 1.300 líderes públicos, executivos e especialistas, oferece um retrato inquietante – e cada vez mais familiar – do estado do mundo.
Pela primeira vez, os conflitos geoeconômicos encabeçam a lista dos maiores riscos globais no curto prazo, superando guerras convencionais e ameaças ambientais imediatas.
Não se trata de um detalhe técnico menor, mas de um sinal eloquente de que a economia deixou de ser apenas um terreno de interdependência para se tornar um instrumento de poder, coerção e disputa estratégica.
📊 Fatos e Dados
Quase 40% dos entrevistados projetam um período de elevada instabilidade nos próximos dois anos, marcado por desinformação, polarização social, eventos climáticos extremos e conflitos entre países.
O dado, por si só, seria alarmante em qualquer contexto.
Torna-se mais grave num mundo mais fragmentado, menos cooperativo e progressivamente hostil às regras que sustentaram, com todas as suas imperfeições, a ordem internacional das últimas décadas.
💥 Impacto e Consequências
O relatório organiza os riscos globais em grandes categorias – geopolíticos, econômicos, sociais, ambientais e tecnológicos –, mostrando como eles se interligam e se reforçam.
Além da confrontação geoeconômica, figuram entre os principais riscos de curto prazo os conflitos armados entre Estados, crises econômicas, polarização política e os impactos de eventos climáticos extremos.
No horizonte de longo prazo, seguem dominando as preocupações com a mudança do clima, a perda de biodiversidade, o colapso de ecossistemas e os riscos associados ao uso desregulado de tecnologias emergentes, como a inteligência artificial.
💥 Como estadao Afeta o Cotidiano
Há, porém, uma tensão evidente entre o diagnóstico e a realidade.
O documento insiste, corretamente, na necessidade de cooperação internacional, responsabilidade compartilhada e diálogo multilateral como únicas respostas viáveis a riscos que não respeitam fronteiras.
A prática global, contudo, segue em sentido oposto.
Grandes potências estão empenhadas em assegurar e expandir suas esferas de influência, recorrendo cada vez mais a instrumentos econômicos, comerciais e tecnológicos como armas geopolíticas.
De um lado estão os Estados Unidos, conduzidos pela lógica de um imperialismo redivivo pela doutrina trumpista, que combina protecionismo agressivo, negação do multilateralismo e uso seletivo de sanções e tarifas.
De outro, o eixo sino-russo, que articula autoritarismo político, revisionismo geopolítico e contestação aberta às normas liberais do pós-guerra fria.
A inspiração autocrática de lado a lado parece ser a tônica.
O resultado é o enfraquecimento das instituições multilaterais, a erosão de mecanismos de coordenação global e o recrudescimento do protecionismo, com impactos diretos sobre cadeias de suprimento, segurança alimentar, transição energética e estabilidade financeira.
Em vez de cooperação, prevalece a lógica do jogo de soma zero.
Há intimidação econômica explícita onde deveria haver diálogo.
No lugar de regras comuns, a lei do mais forte.
Longe de ser futurologia alarmista, o Global Risks Report 2026 é um espelho desconfortável de um mundo que parece ter aprendido pouco com crises recentes – pandemia, guerras regionais, emergência climática, crises financeiras em escala global e a explosão da desinformação como estratégia deliberada de ação pública de tribos ideológicas.
Ignorar esse diagnóstico seria um erro grave.
Mais grave é que governos com poder para mitigar esses riscos seguem adotando estratégias que os aprofundam.
Ao privilegiar rivalidades geoeconômicas, agendas protecionistas e projetos de hegemonia que solapam a cooperação, as grandes potências tornam cada vez mais improvável a construção das respostas coletivas de que o mundo precisa.
Entre o discurso protocolar do diálogo e a prática recorrente da confrontação, a ordem internacional avança para um período prolongado de instabilidade, afastando-se perigosamente das soluções para crises que afirma querer evitar.
O Brasil precisa saber como resguardar seus melhores interesses nesse contexto.
Fonte: estadao
19/01/2026 09:07











