Cinco grandes empresas jornalísticas dos EUA deflagraram uma nova ofensiva judicial contra o Google, acusando a big tech de práticas “enganosas e manipuladoras” no mercado publicitário digital.
Trata-se de mais um capítulo de uma disputa que, em essência, diz respeito à valorização do jornalismo profissional como o mediador fundamental na democracia.
Se a base econômica do jornalismo profissional continuar a ser erodida pelo parasitismo das big techs, o debate público tende a empobrecer ainda mais, com graves consequências para as sociedades abertas.
Os processos movidos por The Atlantic, McClatchy, Vox Media, Condé Nast e Penske Media lançam luz sobre um problema que há anos se instalou na área de comunicação: a captura, por empresas de tecnologia (não de jornalismo), da maior parte das receitas publicitárias geradas pela circulação de conteúdo jornalístico profissional.
🌍 Contexto e Relevância
A publicidade, historicamente um dos esteios do financiamento da imprensa independente, tem sido drenada para plataformas digitais orientadas por algoritmos que organizam a distribuição de informações segundo critérios de engajamento e rentabilidade, não de interesse público.
Antes o problema estivesse circunscrito à apropriação de conteúdo jornalístico por buscadores como o Google sem a devida contrapartida comercial.
📊 Informação Complementar
O cenário atual é bem mais abrangente.
É preciso expandir essa obrigação às big techs que controlam as redes sociais e, sobretudo, às empresas desenvolvedoras de ferramentas de inteligência artificial, que, para treinar seus modelos algorítmicos, exploram material jornalístico muito além do fair use.
🧠 Análise da Situação
Trata-se de outro desdobramento de um processo sistemático de apropriação de conteúdo produzido por terceiros que só agrava a asfixia financeira da imprensa independente.
Esse deslocamento de recursos criou um círculo vicioso.
Empresas jornalísticas mobilizam enormes esforços humanos e financeiros para produzir informação verificada e eticamente apurada.
Esse conteúdo, essencial para a formação de cidadãos bem informados, circula amplamente nas plataformas digitais, garantindo às big techs audiência e faturamento publicitário.
No entanto, a contrapartida financeira para quem produz a informação, quando há, é irrisória.
Ou seja, o valor gerado pelo jornalismo profissional quase nunca retorna às empresas que o produziram na medida justa.
Quando a mediação profissional do debate público perde sua sustentação econômica, sobretudo por concorrência desleal, o jornalismo independente perde força.
O resultado concreto disso é o enfraquecimento da fiscalização do poder, o que abre um abismo no qual vicejam mentiras, distorções da realidade factual e teorias conspiratórias.
Sociedades no mundo inteiro lidam com os efeitos deletérios dessa desordem informacional.
Isso corrói a confiança entre cidadãos – e entre estes e as instituições –, impede a formação de consensos mínimos sobre o que é fato e, assim, oblitera as chances de haver um diálogo racional sobre questões de interesse comum.
Com seus métodos rigorosos e imperativos éticos, o jornalismo profissional é a fonte de lucidez em meio a esse caos.
É verdade que parte significativa dos usuários das redes sociais se vale dessas plataformas para consumir ou disseminar conteúdos falsos ou abjetos.
Mas também é inegável que milhões de pessoas, no Brasil e no mundo, utilizam as redes como porta de entrada para a informação jornalística confiável.
As plataformas se beneficiam dessa função de “ponte”, digamos assim.
Como já defendemos nesta página, é imperativo que as big techs remunerem satisfatoriamente as empresas jornalísticas pelo uso de conteúdos que lhes geram vultosa receita.
Não por benevolência, mas por se tratar de uma retribuição justa.
Os processos ora iniciados nos EUA, que não são os primeiros nem serão os últimos, reafirmam que o modelo atual é insustentável.
Para preservar uma ordem informacional minimamente saudável, é preciso enfrentar o desequilíbrio de poder entre as big techs e as empresas jornalísticas.
Sem o jornalismo profissional forte, independente e economicamente sustentável, a democracia perde um de seus pilares.
E isso é um risco que jamais pode ser negligenciado.
Fonte: estadao
03/02/2026 07:51









