O Brasil voltou a pavimentar o caminho que, num passado recente, produziu a perigosíssima onda de candidatos, lideranças e retóricas antissistema, os chamados outsiders.
Figuras assim prosperam em ambientes políticos marcados por uma combinação de desencanto, frustração, indignação e inércia institucional, terreno fértil tanto para líderes messiânicos, como o petista Luiz Inácio Lula da Silva, quanto para os que se propõem a destruir o “sistema”, como Jair Bolsonaro.
Os ingredientes dessa receita indigesta são conhecidos: corrupção, privilégios, desperdício de recursos públicos e a sensação de que, mais preocupado com as regalias da própria grei, o establishment político nutre profundo desprezo pelo País.
A sequência recente de decisões ajuda a explicar esse cenário.
🔄 Atualizações Recentes
Replicando as piores práticas do Judiciário e do Ministério Público, o Congresso aprovou uma gratificação que dobra salários de servidores do Legislativo, em afronta ao teto constitucional.
Ao mesmo tempo, seus caciques reiteraram a retórica das “prerrogativas” parlamentares, senha para avisar ao distinto público que tudo farão para preservar os amplos direitos adquiridos sobre o Orçamento da União por meio de emendas sem transparência.
Mais: quando contrariados por uma eventual ausência de contrapartidas do Executivo, como cargos e verbas, parlamentares não hesitam em transformar pautas-bomba em matéria fiscal em armas políticas.
Foi o que se viu no fim do ano passado.
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Do outro lado da rua, Lula e seus arcontes no Palácio do Planalto, longe de atuarem como freio de responsabilidade, contribuem para a erosão da disciplina fiscal.
Relativizam metas que o próprio governo propôs, fabricam ou aceitam atalhos para contornar limites orçamentários, estimulam despesas permanentes sem contrapartidas e tratam o equilíbrio das contas públicas como detalhe negociável para acomodar pressões políticas.
Não se trata de preciosismo técnico.
Desequilíbrios dessa natureza desorganizam o País, afastam investimentos de longo prazo e, no fim da cadeia, penalizam a população.
Ainda assim, o presidente subordina a ação governamental à lógica de transformar o Planalto em palanque permanente, guiado pela conveniência eleitoral.
O resultado é um Estado novamente capturado pela visão de curtíssimo prazo, cenário ideal para a ressurgência de discursos que se apresentam como antídoto ao “sistema”, quando na verdade apenas exploram suas deformações.
Nada mais propício para quem se vende como ruptura, ainda que carregue riscos já conhecidos da sociedade brasileira.
Nesse ambiente, o senador Flávio Bolsonaro ensaia a reencarnação do discurso antipolítica que impulsionou a ascensão do pai entre 2017 e 2018.
O MBL e seus líderes, como o deputado federal Kim Kataguiri, reaparecem autoproclamando-se adversários do establishment.
Como resumiu o fundador Renan Santos, a estratégia é “colocar lenha na fogueira”.
Para completar o paradoxo, o próprio presidente Lula, às vésperas de iniciar seu 12.º ano no comando do País, posa como âncora do antissistema, um outsider injustiçado quando ataca as “elites”, os bilionários, o mercado financeiro e a imprensa profissional.
Um escárnio.
Depois, de nada adiantará fingir surpresa ou terceirizar culpas.
O discurso antissistema prospera quando o sistema se mostra incapaz de oferecer respostas sérias, previsíveis e minimamente coerentes.
Democracias avançadas ensinam, contudo, que mudanças duradouras são fruto de reformas incrementais, pactuadas, baseadas em instituições fortes e respeito às regras do jogo.
Mas quando Executivo e Legislativo (e também o Judiciário, convém dizer) parecem mais empenhados em proteger interesses imediatos do que em construir um país econômica, política e socialmente sustentável, abrem espaço para quem promete demolir tudo – não obstante nada tenha de sólido para colocar no lugar.
O Brasil já sabe aonde isso pode levar.
📊 Informação Complementar
Em 2018, a frustração legítima com a política tradicional foi capturada por um projeto personalista, autoritário e incompetente, vendido como ruptura redentora.
O custo foi alto demais para ser tratado como acidente.
O desempenho do arruaceiro digital Pablo Marçal na eleição municipal de São Paulo reforçou o alerta.
Tratar o voto como instrumento de protesto contra o sistema, e não como escolha responsável de governo, já cobrou um preço elevado do País.
E tende a fazê-lo novamente.
Fonte: estadao
16/02/2026 09:40










