O Fórum Econômico Mundial de Davos sempre foi terreno fértil para anúncios tão grandiloquentes quanto impotentes.
Donald Trump levou o contraste a um novo patamar.
Foi ali que inaugurou um nebuloso “Conselho da Paz”, apresentado como instrumento para destravar o pós-guerra em Gaza – e, segundo o próprio presidente, potencialmente apto a lidar com outros conflitos e até a substituir a Organização das Nações Unidas (ONU).
A ambição é grande.
O contexto, menos edificante.
🔍 Detalhes Importantes
Enquanto perorava sobre novas arquiteturas para a paz mundial, Washington oficializava sua retirada da Organização Mundial da Saúde.
Pouco antes, anunciou o abandono de mais de 60 organismos internacionais.
Não se trata de um gesto isolado, nem de um espasmo de irritação com a burocracia multilateral, mas de uma ofensiva sistemática contra o sistema de cooperação internacional que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir e liderar ao longo de oito décadas.
Há quem interprete essa estratégia como pragmatismo agressivo: substituir fóruns lentos e disfuncionais por arranjos mais “eficientes”.
Mas o padrão revela algo diferente.
O Conselho da Paz não surge para corrigir falhas específicas da ONU, nem para torná-la mais funcional, mas como parte de uma estratégia institucional, na qual trocam-se compromissos universais por clubes seletivos, regras compartilhadas por decisões discricionárias e processos previsíveis por encenação política.
Nada ilustra melhor esse descompasso do que o próprio caso de Gaza.
Em vez de simplificar a governança do território no pós-guerra, o arranjo patrocinado pelos EUA multiplica conselhos, camadas de autoridade e instâncias paralelas, sem produzir controle efetivo do terreno nem alívio concreto para a população civil.
A paz, nesse modelo, aparece menos como resultado de instituições funcionais e mais como performance diplomática.
O contraste torna-se ainda mais desconfortável ante o tratamento dispensado por Trump às instituições que, de fato, sustentaram a estabilidade internacional no pós-guerra.
Enquanto proclama iniciativas improvisadas e personalistas em nome da paz global, o presidente mina alianças reais, relativiza compromissos históricos e trata a Otan como fardo ou moeda de barganha.
O que funciona é desprezado; o que é incerto é celebrado.
Com todos os seus defeitos, a Otan foi o mais eficaz mecanismo de dissuasão interestatal da história moderna.
Não por carisma nem por improviso, mas por regras claras, previsibilidade e compromissos verificáveis.
Enfraquecê-la enquanto se ensaia uma cruzada retórica pela paz mundial não é só incoerente, é contraproducente para os próprios Estados Unidos.
Não se trata de idealizar a ONU.
Seu Conselho de Segurança é paralisado por vetos, a burocracia é pesada e a frustração é recorrente.
Ainda assim, ela continua sendo o único fórum verdadeiramente universal onde potências rivais, aliados relutantes e Estados frágeis compartilham ao menos uma gramática comum.
Abandoná-la não elimina seus defeitos, só o espaço onde eles podem ser sanados.
A Liga das Nações não fracassou por excesso de multilateralismo, e sim porque foi sistematicamente esvaziada, contornada e ignorada pelas próprias potências que deveriam sustentá-la.
Não é preciso forçar paralelos com os anos 1930 para reconhecer ecos tenebrosos: quando o foro comum perde legitimidade, o vazio raramente é preenchido por algo melhor.
Reformar instituições multilaterais é lento, trabalhoso e politicamente ingrato.
Contorná-las é tentador, rápido e teatral.
📊 Informação Complementar
Mas os custos vêm depois – em alianças corroídas, conflitos prolongados e ordens paralelas sem legitimidade.
A paz não é um produto que se lança em Davos.
É um processo que exige instituições capazes de sobreviver a governos, humores e vaidades.
A ONU é imperfeita, frustrante e frequentemente insuficiente.
Ainda assim, num mundo fragmentado, ela permanece o fórum mais plausível para negociações multilaterais minimamente estáveis.
Ruim com a ONU, sem dúvida.
Mas a experiência histórica e o presente já indicam: sem ela, o mundo tende a ficar não mais eficiente, apenas mais perigoso.
Fonte: estadao
26/01/2026 07:50











