Com ‘As Cobras’ e ‘Família Brasil’, Luis Fernando Verissimo foi referência para cartunistas Construção dos desenhos do escritor e ilustrador obedecia a um rigoroso projeto minimalista, fruto de uma solução gráfica sofisticada, a despeito de sua rigorosa autocrítica Luis Fernando Verissimo destacou-se como referência para cartunistas com seu humor refinado e traços minimalistas em criações marcantes como “As Cobras” e “Família Brasil”, retratando com sutileza a sociedade e a censura da época.
Embora não se considerasse um desenhista, Luis Fernando Verissimo era uma referência para cartunistas de todo o Brasil.
Criador da tira As Cobras em 1975 – dupla de ofídios empenhada em derrubar a ditadura com seus venenosos comentários-, Verissimo dizia que elas só tinham nascido para traduzir por meio do desenho o que as palavras não podiam exprimir por causa da censura do regime militar.
As cobras sobreviveram ao tacão dos generais, mas foram mortas pelo próprio autor, em 1999.
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Não ficava bem um sexagenário desenhando "cobrinhas", justificou.
Não eram, evidentemente, cobrinhas.
Eram frutos de uma solução gráfica sofisticada, a despeito da rigorosa autocrítica do escritor e ilustrador – que explicou a escolha dos bichos pela facilidade do desenho ("cobra é só pescoço, não tem mãos").
Não é demais comparar essa simplicidade ao traço do cartunista e desenhista romeno, naturalizado norte-americano, Saul Steinberg (1914-1999), associado à revista The New Yorker por mais de 60 anos.
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A exemplo de Steinberg, a construção do desenho em Verissimo obedece a um rigoroso projeto minimalista.
Tanto que os traços sintéticos da tira As Cobras dariam lugar, nos anos 1980, à concisão da Família Brasil, criada em 1989 quando Verissimo passou a colaborar com uma coluna dominical no Estadão.
Família Brasil talvez seja a criação mais popular de Verissimo, que teve outros famosos personagens, o detetive Ed Mort e o rude analista de Bagé, recriados por amigos desenhistas (o primeiro por Miguel Paiva e o segundo por Edgar Vasques).
Verissimo dizia "desconhecer" os integrantes da Família Brasil.
Sua intenção, dizia, não era fazer uma série com personagens fixos.
Quando viu, a família estava formada, mas a profissão do pai, por exemplo, permaneceu uma incógnita em todos esses anos.
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Sabe-se que a mãe é uma dona de casa e que o casal teve dois filhos, uma garota (a mais velha) e um garoto.
Depois viriam um neto pequeno e uma neta de colo.
Típica representante da classe média brasileira, a Família Brasil sofre o que todas de sua categoria social sofrem: o dinheiro é sempre curto, nem sempre pode tirar férias e o patriarca, além de tudo, é levado a filosofar para responder às questões metafísicas propostas pela mulher, os filhos e os netos.
Há quem veja nos traços do pai semelhanças com seu criador, como se a Família Brasil fosse uma extensão da família Verissimo.
Tímido, reservado, ele dizia que ninguém ali representava a sua família, mas admitia ter aproveitado algumas situações reais para explorar na tira que acompanhava sua crônica dominical no Caderno 2.
A relação de Verissimo com o desenho começou cedo.
Garoto, lia gibis e o Globo Juvenil, como todos os meninos de sua idade.
Por ter vivido nos EUA em sua infância, tinha especial carinho por Krazy Kat, a surrealista e poética tira desenhada entre 1913 e 1944 por George Herriman, um dos primeiros criadores de quadrinhos a ser legitimado pela comunidade intelectual (o poeta E.
E.
Cummings adorava seu trabalho).
O afeto de Krazy por Ignatz, o rato da tira de Herriman, tocou outros autores, como o beat Jack Kerouac, e influenciou a linguagem gráfica de Verissimo.
Os personagens secundários que aparecem na tira As Cobras – como Queromeu, o corrupião corrupto, ou Sulamita, a pulga lasciva – devem muito a Krazy Kat, que contracena com outros bichos (uma pata ranzinza, um coiote aristocrata).
Como Steinberg e Herriman, Verissimo garantiu seu lugar no panteão dos grandes cartunistas.
Vamos sentir saudades de seus traços delicados e do seu humor sutil.
Fonte: terra
30/08/2025 12:41