"A Onda", romance publicado originalmente em 1981 pelo alemão Todd Strasser, chegará pela primeira vez a Portugal já no próximo dia 1 de abril, na chancela da Editorial Presença.
A premissa desta obra baseada em factos reais pode parecer simples, mas as repercussões são tudo menos isso: ao procurar responder a uma pergunta sobre as raízes do nazismo, um professor criou uma experiência que rapidamente descarrilou e expôs que ninguém está imune ao apelo do autoritarismo.
"Numa sala de aula, na disciplina de História, uma pergunta inquietante dá início a uma experiência que foge rapidamente ao controlo.
Para explicar como foi possível o surgimento do nazismo, um professor cria A Onda, um movimento baseado na disciplina, na união e na obediência.
O que começa como um exercício pedagógico depressa se transforma num poderoso fenómeno de grupo, que alastra a toda a escola, tornando-se capaz de seduzir, excluir e silenciar”, resume a sinopse disponibilizada pela editora.
A obra de Todd Strasser foi adaptada ao cinema em 2008 e, mais tarde, ao pequeno ecrã, com a série "Nós Somos a Onda", lançada em 2019 pela Netflix.
Apesar de ambas se desenrolarem na Alemanha, o caso que as inspirou teve lugar nos Estados Unidos, na década de 1960.
Afinal, como é que tudo começou?
Há muito que os alunos da Escola Secundária Cubberley, em Palo Alto, na Califórnia, estavam habituados aos métodos pouco ortodoxos de Ron Jones, ou não tivesse o docente de 25 anos obrigado os estudantes daquela instituição de ensino, quase exclusivamente branca, a usar casas de banho diferentes, para ilustrar a segregação do apartheid.
"Estávamos a estudar a Alemanha nazi e, a meio de uma aula, fui interrompido por uma pergunta.
Como é que a população alemã podia alegar ignorância sobre o massacre do povo judeu?
Como é que os habitantes das cidades, os condutores de comboios, os professores e os médicos podiam afirmar que nada sabiam sobre os campos de concentração e a carnificina humana?
Como é que pessoas que eram vizinhos e talvez até amigos dos cidadãos judeus podiam dizer que não estavam presentes quando tudo aconteceu?
Era uma boa pergunta.
Não sabia a resposta.
Como ainda faltavam vários meses para o fim do ano letivo e já estava a dar a Segunda Guerra Mundial, decidi dedicar uma semana a explorar a questão”, recordou Jones, num relato do que aconteceu naquele abril de 1967, que viria a servir de base para “A Onda”.
O primeiro dia da experiência – que ficou conhecida como "A Terceira Onda" – foi dedicado à "beleza da disciplina" associada ao regime nazi.
O professor ensinou os alunos do 10.º ano a sentar-se e a respirar de forma correta.
Além disso, obrigou-os a tratá-lo por Sr.
Jones, a entoar slogans e a colocar questões de pé.
Quando entrou na sala de aula, no segundo dia, o docente deparou-se com a turma sentada em silêncio, colocando em prática o que tinha aprendido.
Este segundo dia da simulação debruçou-se sobre a força da comunidade, que Jones descreveu como "aquele laço entre indivíduos que trabalham e lutam juntos".
"Para criar um momento de união com a turma, pedi que recitassem em uníssono ‘Força através da disciplina’ e ‘Força através da comunidade’.
Primeiro, pedia a dois alunos que se levantassem e repetissem o nosso lema.
Depois, acrescentava mais dois, até que, por fim, toda a turma estivesse de pé a recitar.
Foi divertido.
Os alunos começaram a olhar uns para os outros e a sentir o poder do sentimento de pertença.
Todos eram capazes e iguais.
Estavam a fazer algo juntos.
Trabalhámos neste ato simples durante toda a aula.
Repetíamos os lemas num coro rotativo ou dizíamos-os com vários graus de volume.
Dizíamos-os sempre juntos, enfatizando a maneira correta de se sentar, levantar e falar", explicou.
O docente estabeleceu também uma saudação, que consistia em "levar a mão direita até ao ombro direito, com a palma curvada", que se propagou além das paredes da sala de aula, o que levou "muitos alunos que não pertenciam à turma a perguntar se podiam participar".
"Na quarta-feira, decidi distribuir cartões de membro a todos os alunos que quisessem continuar o que agora chamava de ‘experiência’.
Nenhum aluno optou por sair da sala.
Neste terceiro dia de atividade, havia 43 alunos na turma.
Treze alunos tinham faltado às aulas para participar na experiência", disse.
Entre os cartões, três estavam marcados com um X vermelho, o que significava que os seus destinatários "tinham uma tarefa especial: denunciar qualquer aluno que não cumprisse as regras da turma".
Eventualmente, todos ficaram responsáveis por algum encargo, assim como pela recruta de novos membros.
"No final do terceiro dia, estava exausto.
Estava a desmoronar-me.
A linha entre a encenação e o comportamento real tornou-se indistinguível.
Muitos dos alunos estavam completamente imersos nos papéis de membros da Terceira Onda.
Exigiam obediência estrita às regras por parte dos outros alunos e intimidavam aqueles que não levavam a experiência a sério.
Outros simplesmente deixaram-se levar pela atividade e assumiram papéis que se autoatribuíram", assinalou.
“Não são melhores nem piores do que os nazis alemães que temos vindo a estudar” No quarto dia da experiência, Jones confessou que “muitos alunos tinham ultrapassado os limites” e que ele próprio “agia instintivamente como um ditador”.
📊 Informação Complementar
A turma contava, naquela altura, com 80 estudantes, sendo que apenas a disciplina e a regra de "permanecerem sentados em silêncio e em posição de sentido" fez com que todos coubessem na sala.
O docente revelou que a simulação era, na verdade, “um programa nacional destinado a encontrar alunos dispostos a lutar pela mudança política” no país, e que, no dia seguinte, “um candidato à presidência a nível nacional iria anunciar a criação de um Programa Juvenil da Terceira Onda”, com mais de mil grupos.
Os seus alunos tinham sido "selecionados para representar a sua região".
Ao quinto dia, o professor revelou, finalmente, que tudo não passava de uma farsa: "Não há nenhum líder!
Não existe tal coisa como um movimento juvenil nacional chamado Terceira Onda.
Vocês foram usados.
Manipulados.
Empurrados pelos vossos próprios desejos para o lugar onde agora se encontram.
Não são melhores nem piores do que os nazis alemães que temos vindo a estudar."
"Pensaram que eram os eleitos.
Que eram melhores do que aqueles que estão fora desta sala.
Trocam a vossa liberdade pelo conforto da disciplina e da superioridade.
Optaram por aceitar a vontade desse grupo e a grande mentira em detrimento das vossas próprias convicções.
Ah, pensam para vós mesmos que estavam apenas a alinhar por diversão.
Que podiam libertar-se a qualquer momento.
Mas para onde se dirigiam?
Até onde teriam ido?
Deixem-me mostrar-vos o vosso futuro”, disse, projetando imagens do ditador Adolf Hitler e das manifestações nazis, para enfatizar a facilidade com que os jovens tinham sido levados a comportar-se como fascistas.
De acordo com Jones, enquanto alguns alunos choravam, outros irrompiam da sala.
Dois anos depois, foi demitido, alegadamente pela sua ação contra a guerra.
Ninguém lhe disse que tenha sido por causa da experiência, mas também ninguém o negou.
Numa entrevista ao The Guardian, em 2008, Jones apontou que não se arrependia de ter levado a cabo a simulação, mas que não a repetiria.
"É um quadro de referência para aprender e debater sobre o fascismo e sobre o que nos traz felicidade e alegria.
Mas é como a bomba atómica.
É valiosa?
Sim, mas também é perigosa", resumiu.
Leia Também: Novas edições das obras de Eduardo Lourenço este mês nas livrarias
Fonte: noticiasaominuto
22/03/2026 19:00











