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Editorial: Trump anuncia acordo com o Irã como uma vitória, mas o regime resiste e programa nuclear ainda será negociado

16 de junho de 2026
in ECONOMIA, POLÍTICA, TECNOLOGIA
Home ECONOMIA
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O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um acordo com o Irã em tom de triunfo.

O Estreito de Ormuz será reaberto.

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Os navios voltarão a circular.

Após meses convivendo com a ameaça de uma ruptura prolongada do comércio de energia, os mercados respiram aliviados.

Depois de quase quatro meses de guerra, não é pouco.

Mas está longe de ser muito.

💥 Impacto e Consequências

Desde o início do conflito, a Casa Branca associou a campanha militar a objetivos certamente mais ambiciosos do que o fluxo comercial no Golfo – que, recorde-se, estava desimpedido antes da guerra.

Em momentos diferentes, falou-se em neutralizar a ameaça nuclear iraniana, debilitar a Guarda Revolucionária, obliterar as milícias apoiadas por Teerã e cimentar a estabilidade regional.

A própria queda do regime entrou no horizonte das promessas.

Do que se sabe do acordo a ser ratificado na próxima sexta-feira, Ormuz será gradualmente desobstruído, o bloqueio naval americano será suspenso, o Irã poderá voltar a exportar petróleo e as partes negociarão pelos próximos 60 dias um entendimento mais amplo.

No momento, o programa nuclear iraniano continua sendo objeto de conversas futuras.

O destino dos estoques de urânio enriquecido permanece indefinido.

Não há clareza sobre os limites que serão impostos ao enriquecimento nem sobre mecanismos permanentes de verificação.

Não há clareza sequer sobre o formato do acordo que Washington pretende alcançar.

Ou seja, as hostilidades terminam abrindo negociações justamente sobre aquilo que serviu de justificativa para a guerra.

Não é que a ofensiva americana tenha sido completamente inútil.

O Irã sofreu danos reais.

Sua infraestrutura militar foi atingida.

Parte de suas capacidades nucleares foi degradada.

A liderança iraniana descobriu que está longe de ser intocável.

Mesmo críticos do conflito reconhecem que, se o regime está mais radicalizado, também está mais vulnerável.

Só que vulnerabilidade não é sinônimo de contenção.

Os mísseis balísticos continuam existindo, bem como a rede regional de milícias terroristas a serviço de Teerã.

Os países do Golfo celebram a perspectiva de estabilidade imediata, mas dificilmente se sentem mais seguros do que antes da guerra.

Israel, principal aliado regional dos EUA, observa com inquietação um acordo que parece deixar de fora justamente os temas que mais o preocupam.

A ironia é amarga.

O resultado mais tangível do acordo é a reabertura de Ormuz.

Só que antes da guerra Ormuz já estava aberto.

O que mudou foi a demonstração prática da capacidade do Irã de provocar choques econômicos globais quando decide transformar o estreito em instrumento de pressão política.

Uma ameaça que durante anos permaneceu teórica foi testada com razoável grau de sucesso e tornou-se um fato concreto.

Além do silêncio das armas e da circulação dos cargueiros, qualquer celebração seria prematura.

Assim como seria prematuro declarar o triunfo ou o fracasso de um lado ou de outro.

Os próximos meses podem produzir avanços relevantes.

Um acordo robusto sobre o programa nuclear mudaria a avaliação desse conflito – ainda que o mesmo resultado talvez pudesse ter sido obtido pela via diplomática.

📊 Informação Complementar

No entanto, se os objetivos anunciados para a guerra forem tomados como critério, o resultado provisório está mais longe de ser uma vitória dos EUA do que do Irã.

O regime dos aiatolás segue no poder, o Irã demonstrou capacidades consideráveis de causar estragos econômicos e os países da região se sentem menos seguros e mais desconfiados de Washington.

Mais importante: a capacidade nuclear iraniana não foi eliminada.

A menos que a ofensiva diplomática reverta esse quadro, a “paz” prometida por Trump sairá muito cara para os EUA e o mundo.

Talvez o acordo venha a ser lembrado como o primeiro passo para uma solução duradoura.

Hoje, porém, ele se parece mais com uma trégua que compra tempo – ou uma saída de emergência – do que com uma paz que resolve problemas.

A história das guerras está repleta de armistícios celebrados como triunfos antes que seus termos fossem postos à prova.

O acordo propagandeado por Trump ainda terá de percorrer um longo caminho para demonstrar que pertence a uma categoria diferente.


Fonte: Estadão

16/06/2026 06:00

Tags: Editorialeditorial: trumpestadãotrumptrump anuncia
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