Cabeça de Gestor com Daniel Pegorini, da Valora – FIDCs atravessam juros altos sem piora de risco Executivo destaca papel da subordinação de cotas e da pulverização dos ativos na proteção dos fundos e defende importância da seleção de gestores.
Gerando resumo Com a Selic em 14,5% ao ano, os títulos de dívida pública dos Estados Unidos (Treasuries) de 10 anos acima de 4,5% e inflação ainda resistente, a renda fixa voltou ao centro das carteiras.
Mas, para o investidor de alta renda, a discussão já deixou de ser apenas proteção.
O foco agora envolve transformar esse ambiente em uma estratégia eficiente de crescimento patrimonial sem assumir riscos desproporcionais.
Na avaliação de Régis Chinchila, analista de Research da Terra Investimentos, o momento atual oferece uma “janela rara de retorno real [rendimento descontado o efeito da inflação] elevado sem precisar assumir risco excessivo”.
Segundo ele, o núcleo das carteiras segue concentrado em pós-fixados de alta liquidez, como Tesouro Selic, Certificado de Depósito Bancário (CDB) atrelado à Taxa DI (juros pagos por bancos quando fazem empréstimos entre si) e fundos conservadores, que continuam entregando “carrego elevado com baixa volatilidade”.
Mas o diferencial estratégico, segundo os especialistas, está menos no simples aproveitamento do CDI e mais na construção gradual de posições capazes de capturar juros reais historicamente elevados.
Nesse contexto, os títulos atrelados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ganharam protagonismo.
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Chinchila destaca que os papéis IPCA+ voltaram a ficar “muito atrativos em termos de juro real”, especialmente nos vértices mais longos.
Além de funcionarem como proteção contra inflação persistente junto a um cenário de deterioração fiscal do País, esses títulos ainda carregam potencial de ganho adicional via marcação a mercado caso os juros cedam mais adiante.
Marcação a mercado demonstra a atualização diária do preço do título se ele for vendido antes do vencimento no mercado secundário – entenda mais aqui.
A leitura é compartilhada por Gustavo Assis, CEO da Asset Bank.
Segundo ele, o investidor de alta renda vive hoje um cenário raro, em que consegue combinar “proteção, liquidez e ganho real relevante dentro da própria renda fixa”.
“Os títulos atrelados ao IPCA continuam oferecendo spreads [prêmio pago ao investidor além da inflação] altos, em alguns casos acima de IPCA + 7%, o que representa um ganho real importante no longo prazo", afirma.
Marcus Macedo, CIO do Andbank, classifica as NTN-Bs (nome técnico dos títulos atrelados ao IPCA) atuais como uma forma relativamente segura de acelerar o crescimento patrimonial.
“Uma NTN-B pagando acima de 7% de juro real chama bastante atenção.
Como regra de bolso, um retorno real dessa magnitude praticamente dobra o poder de compra em cerca de dez anos”, diz.
Nem tudo são flores
Ainda assim, os especialistas alertam que o momento exige mais sofisticação na montagem da carteira.
A principal mensagem é que o investidor não deve transformar a busca por retornos maiores em uma aposta excessivamente direcional.
“O principal erro do investidor sofisticado neste momento é montar uma carteira apostando excessivamente em queda rápida da Selic”, afirma Chinchila.
Para ele, alongar o duration (prazo médio para recuperar o investimento realizado na compra) de maneira agressiva em prefixados de vencimento longo ou IPCA+ muito extensos pode gerar volatilidade relevante caso a curva de juros siga abrindo (alta das taxas/spreads) em meio às incertezas fiscais, eleitorais e externas.
Leia também O novo mapa da renda fixa privada e os riscos que vêm com ele A estratégia da Galapagos para se posicionar no boom dos ETFs de renda fixa Como a atriz Reese Witherspoon construiu uma empresa de US$ 900 mi: ‘Ninguém viria me salvar’ Rodrigo Franchini, especialista de soluções financeiras da Monte Bravo, reforça que o maior risco hoje está no excesso de alocação e na perda de liquidez.
Segundo ele, muitos investidores enxergam os prêmios elevados e acabam exagerando na exposição a prefixados e títulos longos de inflação.
“Na teoria está lindo e maravilhoso, mas e se você precisar de liquidez?”, questiona.
“Você pode ficar preso em um ativo com deságio elevado [no mercado secundário] justamente porque a curva abriu”.
Por isso, a recomendação recorrente entre gestores e estrategistas é construir posições gradualmente.
Assis afirma que a discussão atual “não deveria ser CDI ou prefixado”, mas equilíbrio entre duration, liquidez e proteção inflacionária.
Na prática, a estratégia considerada mais eficiente hoje combina uma parcela relevante em pós-fixados, aproveitando o CDI elevado, com aumento gradual de exposição em prefixados intermediários e IPCA+ de duration moderada.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, segue a mesma linha.
Para ele, ainda faz sentido manter boa parte da carteira em pós-fixados no curto prazo, mas o investidor já pode começar a ampliar duration “aos poucos”, principalmente em IPCA+ intermediários.
“O movimento mais racional hoje não parece ser uma migração agressiva para prefixados longos, mas uma transição gradual e seletiva”, afirma.
O momento do crédito privado
No crédito privado, o consenso é de que o momento favorece seletividade e qualidade.
Chinchila cita debêntures incentivadas, Certificados de Recebíveis Imobiliários com baixo risco de calote (CRIs high grade) e títulos de dívida emitidos no exterior (bonds bancários) como ativos ainda interessantes, embora os spreads tenham ficado mais apertados em emissores médios.
O relatório do Itaú BBA mostra que os spreads médios do crédito privado passaram recentemente por uma reprecificação importante, muito mais ligada a fatores técnicos de fluxo e liquidez do que a uma deterioração estrutural dos fundamentos das empresas.
Segundo o banco, a abertura dos spreads foi intensificada por resgates em fundos e pela baixa profundidade do mercado secundário, especialmente nas debêntures incentivadas.
“A venda no pico de estresse transforma volatilidade temporária em perda cristalizada”, destaca o relatório.
Ainda assim, o BBA avalia que o movimento pode representar uma oportunidade para investidores com capacidade de carregar os ativos até o vencimento para travar retornos mais elevados por muitos anos.
A seletividade também aparece no discurso de Sidney Lima.
Ele alerta que buscar spreads adicionais em empresas mais frágeis pode ser um erro justamente em um ambiente de juros elevados por mais tempo.
Nesse cenário, liquidez, garantias e qualidade de crédito voltam a ganhar prioridade.
FIDCs são os novos queridinhos?
Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) também entraram nas carteiras de alta renda.
Segundo Lima, esses veículos ganharam espaço porque conseguem capturar spreads elevados em um ambiente de juros altos muitas vezes contando com garantias, subordinação e diversificação de recebíveis.
“Isso permite buscar retornos acima do CDI com risco controlado, desde que exista boa gestão e análise de crédito”, afirma.
Outro ponto central na estratégia atual envolve a influência dos juros norte-americanos.
Com os Treasuries acima de 4,5% ao ano, os especialistas avaliam que o investidor global voltou a encontrar retorno relevante em dólar com baixo risco soberano.
Para Assis, os Treasuries em patamar elevado funcionam como um novo piso global de retorno.
“Isso aumenta a concorrência por capital e exige prêmio maior dos mercados emergentes, incluindo o Brasil”, afirma.
Franchini acrescenta que, diante desse cenário, o Brasil precisa manter juros lá em cima para preservar atratividade relativa frente aos ativos dos EUA.
“Se você baixar os juros para 8% ou 9%, isso não gera atratividade frente a um país de primeira linha pagando mais de 4% com moeda forte”, diz.
A recomendação final
Apesar de tudo que foi analisado, os especialistas destacam que o investidor local não deve tentar acertar o “timing perfeito” da curva.
A estratégia mais racional continua sendo diversificação, disciplina e construção gradual de posições.
Anderson Moreira, head de conteúdo da Dex, ressalta que um dos maiores erros do investidor é tentar “bater o CDI do mês” girando a carteira em momentos de volatilidade.
Segundo ele, estratégias de duration mais longa naturalmente sofrem mais marcação a mercado em períodos de abertura da curva, mas isso não invalida a tese estrutural.
“Quem fica girando carteira toda hora que perde para o CDI deixa oportunidade na mesa”, afirma.
Moreira também chama atenção para os fundos de índice (ETFs) de renda fixa negociados na B3, que permitem exposição a estratégias prefixadas e IPCA+ com liquidez D+1 e facilidade de rebalanceamento.
📊 Informação Complementar
Para ele, o investidor precisa alinhar objetivos, prazo e tolerância ao risco antes de definir o tamanho da exposição a ativos mais voláteis.
Gestores e estrategistas concordam que a renda fixa deixou de ser apenas uma ferramenta defensiva.
Com juros reais elevados, inflação ainda resistente e um ambiente global mais restritivo, ela voltou a oferecer um raro pacote ao investidor brasileiro: retorno robusto sem necessidade de assumir risco excessivo, desde que a carteira seja construída com equilíbrio, liquidez e disciplina.
Fonte: Estadão
03/06/2026 10:49











