Decisão mais política que econômica: como o governo brasileiro viu o novo tarifaço de Trump Diplomatas brasileiros dizem, nos bastidores, que governo americano ignorou os argumentos apresentados pelo Brasil nas negociações.
Crédito: Estadão Gerando resumo BRASÍLIA E BRUXELAS* – Depois de ser alvo de uma proposta de tarifa de 25% por parte do governo americano nesta segunda-feira, 1º, por alegadas “práticas incoerentes” na economia, empresários brasileiros já temem uma nova penalidade ainda este mês, resultado de uma investigação em curso contra a prática de trabalho análogo à escravidão no Brasil.
Como mostrou o Estadão, as investigações sobre trabalho forçado foram abordadas na reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Trump na Casa Branca, no mês passado.
O Brasil enfrenta uma denúncia por déficit de fiscais do trabalho, que foi remetida ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).
🌍 O Cenário Atual de estadão
Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, as informações que vêm dos EUA apontam que a nova tarifa pode ser aplicada ainda no mês de junho.
“Estamos esperando para os próximos dias, não vai tardar, o resultado da outra 301 (seção da lei de comércio americana), que é contra 59 países mais a União Europeia, sobre trabalho escravo.
A nossa previsão é que ela vai sair logo e que o Brasil estará condenado junto com alguns outros países”, afirmou Velloso.
A percepção é a mesma de Welber Barral, conselheiro da Fiesp, presidente do IBCI e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil.
📊 Fatos e Dados
“Deve sair ainda este mês.
Pelo menos é o que a gente sabe vindo de Washington (capital dos EUA)”, afirmou.
Leia também Governo manifesta indignação com proposta de novo tarifaço dos EUA por investigação da Seção 301 Novo tarifaço: Mdic estima que medida atingiria 21% das exportações brasileiras Após a derrubada do tarifaço pela Suprema Corte dos EUA, a apuração foi aberta em março pelo USTR contra 59 países e a União Europeia, sob alegação de verificar o impacto e restrições no comércio americano por falhas desses países para impor e aplicar de forma efetiva a proibição à importação de produtos produzidos com trabalho forçado.
Velloso aposta em uma nova tarifa de 10%, que se somaria à taxa de 25% anunciada pelo governo americano esta semana.
“Se isso acontecer, como estamos prevendo, o Brasil ficaria com uma tarifa de 35% – o que é um grande problema”, explicou.
O governo brasileiro esperava que essa decisão demorasse mais tempo, por envolver dezenas de países – ou seja, uma tarifa com impacto global.
O Brasil não mandou representantes à audiência pública nos EUA que tratou sobre o tema em abril, mas o chanceler Mauro Vieira enviou uma carta ao país com as explicações.
O governo Lula alega que toma medidas para combater o trabalho escravo, mas reconhece que há dificuldades para provar que não compra produtos de países que adotam essa prática.
Interlocutores do Palácio do Planalto ouvidos pelo Estadão entendem que o governo americano tem como alvo a China, que exportaria produtos baratos, mas sem respeitar direitos básicos trabalhistas.
‘Questões políticas’ Velloso diz que, diferentemente do tarifaço aplicado no ano passado, desta vez há negociações já abertas entre os dois países, um canal de comunicação entre os presidentes Lula e Donald Trump e a indicação enviada ao Senado americano do novo embaixador para o Brasil.
Também entende que o Brasil tem argumentos técnicos sólidos para se defender das duas investigações – a que trata do trabalho escravo e a que foi anunciada esta semana.
Contudo, acredita que o País será punido em ambas as investigações, por questões políticas que interferem na decisão do governo americano.
“Continuo com a mesma opinião de que, embora o cenário seja diferente do ano passado, vai ser tarifado.
Por quê?
Por causa de questões políticas.
Por mais que nós tenhamos argumentos técnicos, mesmo assim, eles estão sinalizando com essa tarifa de 25%, porque tem o peso político”, afirmou.
O setor de máquinas não conseguiu figurar na lista de exceções.
Segundo Velloso, isso ocorreu porque os itens exportados pelo Brasil entram na cadeia produtiva americana e não compõem o cálculo da inflação – o que tem sido decisivo para a exclusão pelo governo Trump das tarifas.
“Temos bons argumentos, ainda assim, porque 82% da nossa exportação acontece entre companhias, são empresas brasileiras que investem nos Estados Unidos ou empresas americanas que investiram aqui.
A tarifa não faz sentido”, afirmou.
Mesmo com tarifaço do ano passado, o setor de máquinas conseguiu manter a exportação de US$ 4 bilhões para os EUA.
📊 Informação Complementar
Houve queda no volume, mas aumento de preços que foram repassados.
Além disso, o setor abriu novos mercados e ampliou as exportações totais.
*O repórter viajou a convite da Delegação da União Europeia no Brasil
Fonte: Estadão
02/06/2026 19:59












