A redução da jornada de trabalho e a revisão da escala 6×1 são temas legítimos numa sociedade que discute produtividade, qualidade de vida e transformação das relações laborais.
O problema é que a Câmara dos Deputados decidiu conduzir esse debate de forma irresponsável, com retórica eleitoreira e demonização do setor produtivo, composto em sua maioria por micro e pequenas empresas, responsáveis por 7 em cada 10 vagas de emprego criadas no Brasil.
Esses valentes empreendedores brasileiros, a maioria dos quais gente comum com um sonho na cabeça, decidiram investir no País, a despeito da imensa carga tributária, do cipoal burocrático e da persistente insegurança jurídica.
Por isso, deveriam ser mais bem tratados pelo Congresso.
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Mas os deputados, preocupados exclusivamente com as eleições, optaram pelo caminho da demagogia explícita e, em seus discursos, transformaram os empresários em insensíveis senhores de escravos, ignorando o que eles tinham a dizer sobre o assunto.
A sessão que aprovou a PEC do fim da escala 6×1 tornou isso explícito.
O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) afirmou que a proposta acabaria com a “escravidão moderna do século 21”.
O deputado Florentino Neto (PT-PI) declarou que a escala “escraviza”.
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O deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) citou Joaquim Nabuco para defender que “não basta acabar com a escala 6×1, é preciso acabar com a exploração das trabalhadoras e dos trabalhadores”.
Em diversos momentos da discussão, empresários, grandes ou pequenos, foram retratados quase como inimigos morais da civilização.
É evidente que jornadas exaustivas precisam ser combatidas.
O problema começa quando qualquer ponderação sobre custo, produtividade ou impacto econômico passa a ser tratada como defesa da exploração humana, sem levar em conta os desafios técnicos e econômicos num país de baixíssima produtividade.
Para ter uma ideia, a escala 6×1 ainda está presente em 53,2% dos empregos do transporte aéreo, em 52% dos serviços de alojamento, em 47,1% da alimentação e em 42,2% do comércio, segundo o Ministério do Trabalho.
Hospitais, restaurantes, hotéis, supermercados e pequenos negócios não conseguem substituir jornadas e recalcular estruturas inteiras da noite para o dia.
Ainda assim, a Câmara acelerou a tramitação e impôs um prazo de 60 dias, após a promulgação da PEC, para que empresas e trabalhadores renegociem acordos e convenções coletivas para adequação inicial à nova carga horária, o que certamente levará à judicialização.
A PEC originalmente apresentada por Reginaldo Lopes (PT-MG) previa um período de adaptação de dez anos.
Formalmente, representantes empresariais participaram da tramitação, por meio de audiência específica com entidades patronais e manifestações de confederações empresariais.
Mas, na prática, falaram para as paredes.
Quase nada do que foi apresentado pelo setor produtivo parece ter surtido efeito concreto sobre o texto ou sobre o ritmo da tramitação.
A maioria das audiências públicas promovidas pela comissão especial foi dominada pelas centrais sindicais, por movimentos sociais e por representantes do governo, todos obviamente interessados na mágica de reduzir a jornada sem tocar em salários.
Os estudos da Confederação Nacional da Indústria mereciam ao menos ser levados em conta.
A entidade estima impacto anual entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões.
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Nada disso significa que a escala 6×1 deva permanecer intocável.
Mas reformas dessa magnitude exigem transição responsável, negociação séria e respeito às particularidades de cada atividade econômica.
O Congresso preferiu outro caminho: transformar empresários em vilões convenientes de uma campanha eleitoral disfarçada de avanço social.
No plenário, falar em custo, produtividade ou prazo de adaptação virou quase confissão de insensibilidade moral.
Brasília talvez ganhe aplausos com essa encenação.
Quem produz, emprega e sustenta a economia brasileira ficará com a conta.
Fonte: Estadão
29/05/2026 04:19











