Brasileiro vira estrela inesperada no comando de azarão que pode chegar à Copa Como Sylvinho se tornou o rei da Albânia “I’ve lived a life that’s full/I travelled each and every highway/and more, much more than this, I did it my way.” Ele percorreu todas as estradas, pode-se dizer que teve uma vida plena e fez a seu modo.
Com alguma desenvoltura e muita afinação, o treinador brasileiro Sylvio Mendes Campos Júnior, o Sylvinho, de 51 anos, fez a plateia aplaudi-lo de pé depois de entoar My Way, o clássico na voz de Frank Sinatra, ao lado da filha, Taty Mendes, durante a cerimônia de premiação dos melhores do futebol da Albânia, em janeiro de 2025.
Àquela altura, ele havia posto a seleção do Leste Europeu na Eurocopa e começava a trilhar o caminho que levaria os rubros-negros, os kuqezinjtë, para a repescagem da Copa do Mundo de 2026 — no fim de março, enfrentarão a Polônia.
Se passarem, vão duelar com Ucrânia ou Suécia — e aí então garantiriam vaga para o Mundial, que será realizado simultaneamente nos Estados Unidos, no México e no Canadá.
🔍 Detalhes Importantes
Recebido pelo primeiro-ministro Edi Rama, que o condecorou com uma láurea prestigiada, a Águia de Ouro, assediado onde quer que vá, Sylvinho virou celebridade no país que, até o início da década de 90, viveu sob o regime comunista.
“Em muitas ocasiões, estou jantando com a minha mulher e, na hora de pagar, a conta já foi coberta por algum fã”, contou a VEJA.
Não seria exagero dizer que a fama de um brasileiro pelas bandas de lá só tem equivalente nos rapapés distribuídos para João Amazonas (1912-2002), antigo secretário-geral do Partido Comunista do Brasil, no tempo em que o país vivia sob a mão de ferro de Enver Hoxha (1908-1985).
“Joao, joao”, sem o sinal diacrítico, gritavam os albaneses.
📊 Fatos e Dados
Bradar o nome de Sylvinho, apesar do diminutivo, soa mais palatável.
Dois nomes da Albânia, enfim, são hoje conhecidos fora das fronteiras da nação espremida entre a Grécia e Montenegro — ele, é claro, e Dua Lipa, a cantora que hoje vive entre Los Angeles e Londres.
Sylvinho ri da analogia, com genuíno sorriso aberto e humor.
“Não dá nem para comparar, porque não tenho a voz dela”, reconhece.
“Mas, vou dizer, nunca fui tão bem tratado num país; o povo albanês é muito generoso.” A travessia fora do Brasil é quase uma resposta aos tempos desagradáveis que passou no Brasil, depois de abandonar a carreira de jogador, em 2010, com passagem bem-sucedida pelo Barcelona e pelo Manchester City.
No Corinthians, entre 2021 e 2022, passou maus bocados, com um time capenga e resultados ruins — apesar do jeitão carismático que fazia a torcida rir, por vezes empolgada, mas quase sempre desesperançosa.
📊 Informação Complementar
Chegou à equipe alvinegra depois de três anos como auxiliar de Tite na seleção, entre 2016 e 2019.
Contratado pela Albânia em 2023, viajou como quem sonhava com muito pouco — e deu certo.
Decidido a mergulhar na cultura do país, mudou-se com a família para a capital, Tirana, ao lado de sua comissão técnica, formada pelo ex-volante Doriva e pelo ex-lateral argentino Pablo Zabaleta.
Arrisca algumas palavras no idioma local, mas ele se comunica mesmo é em inglês, na rua e nos treinos.
Sabe que está vivendo o auge e uma oportunidade rara, que parece pesar no ar.
Só se fala nisso nas ruas do país (e um pouquinho de Dua Lipa, sim).
“Há muita expectativa, porque pela primeira vez a Albânia tem a chance de chegar à Copa”, diz.
O feito fará dele um herói, embora as dificuldades sejam evidentes.
A partida contra a Polônia será em Varsóvia; contra a Ucrânia, em Valência, aonde os ucranianos têm mandado seus jogos; se o rival for a Suécia, o palco será Estocolmo.
Como sonhar é livre, os empolgados albaneses acreditam ser possível fazer com que a terra das águias vire uma zebra, atropelando essas seleções europeias tradicionais.
Classificada, a equipe entraria no Grupo F da Copa, ao lado de Holanda, Japão e Tunísia.
“Seria hipócrita se dissesse que não vi o sorteio, pensando nos próximos passos”, afirma.
“Mas, por enquanto, penso apenas na Polônia.” Quem sabe, se tudo der certo, ele não leve a filha pelos braços para subir o tom e, uma vez mais, dizer que fez de seu jeito, como ensinou Sinatra.
Viva a Albânia de Sylvinho, a 63ª colocada no ranking de seleções da Fifa.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985
Fonte: veja
08/03/2026 18:27











