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Como o fim da escala 6×1 virou armadilha para a direita no embate contra o governo

24 de fevereiro de 2026
in Brasil, POLÍTICA
Home Brasil
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O fim da escala 6×1 virou um dilema para a direita às vésperas da eleição.

Tratada pelo Palácio do Planalto como uma potencial vitrine para a campanha de Lula (PT) à reeleição, a medida também encontra respaldo entre eleitores do campo conservador, o que eleva o custo político de uma possível oposição à proposta para aqueles que se colocam frontalmente contra as pautas do atual governo.

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Um levantamento da AP Exata obtido com exclusividade pelo Estadão ajuda a dimensionar o impasse.

A consultoria analisou 62 mil publicações sobre a proposta no X, Instagram e Facebook e identificou que 55,8% dos perfis de direita apoiam a medida, enquanto 24,2% se posicionam contra e 20% adotam tom neutro.

Ou seja, a pauta tem apelo significativo junto ao eleitorado conservador.

Entre os perfis de centro, campo que o senador Flávio Bolsonaro (PL) busca atrair em um eventual segundo turno de sua campanha presidencial, o apoio é ainda maior: 66,3% das publicações são favoráveis e 13,7% contrárias.

Os dados foram coletados entre 5 e 11 de fevereiro.

Embora o resultado também pudesse significar um desafio extra a políticos de centro, como cabe mais diretamente à direita fazer o confronto com o governo e também há rejeição à pauta de parcela relevante do eleitorado nesse espectro, o problema se torna maior para Flávio Bolsonaro e seus aliados, que necessariamente terão que desagradar pelo menos uma parte importante de seus apoiadores.

“A escala 6×1 é aprovada por todos os espectros, inclusive pela direita.

🧠 Especialistas Analisam estadao

Mas, na direita, há uma divisão maior e rejeição significativa, o que transforma a pauta em uma armadilha para o parlamentar conservador, que, independentemente do caminho que adotar, vai acabar desagradando parte do seu eleitorado”, diz Sergio Denicoli, CEO da AP Exata, cientista de dados e colunista do Estadão.

O PL, principal legenda de oposição ao governo, ainda não definiu seu posicionamento sobre a proposta.

Sóstenes Cavalcante (RJ), líder do partido na Câmara, afirmou que a decisão da legenda será definida com cautela.

“Ele (Lula) quer fazer uma armadilha, mas nós não vamos cair nela.

Vamos avaliar com muita calma cada passo e cada decisão”, afirmou Sóstenes.

”Vamos aguardar o texto novo na comissão especial.

O texto da Erika Hilton tem erro de matemática.

Logo, não podemos votar a favor de um texto que tem erro matemático no projeto de lei”, diz ele, em referência ao fato de que a PEC fala em oito horas diárias e quatro dias trabalhados, o que somaria 32 horas e não 36 horas como apontado em outros pontos do texto.

Hoje, há uma divisão na direita sobre o tema.

Uma parcela majoritária se mostra aberta à possibilidade e outra o rejeita veementemente, sob o argumento de que a mudança poderia gerar efeitos negativos, como o aumento do desemprego.

Os que são contrários à pauta sustentam que parte da direita pode acabar votando a favor não por concordância com a proposta, mas pela proximidade com as eleições e receio de desgaste junto ao eleitorado.

Em 2024, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) enfrentou críticas de seguidores por não assinar a proposta da também deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP).

Na ocasião, Nikolas gravou um vídeo ponderando possíveis impactos da medida sobre a economia.

Ele afirmou que “é inegável que a escala 6×1 é exaustiva para o brasileiro” e defendeu a necessidade de um “debate real, não simplesmente torcida”.

📊 Informação Complementar

O deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP) é contrário à proposta, mas admite que parte da direita pode apoiá-la.

“Tem sempre os populistas e os que gostam de fazer demagogia.

E sempre há gente que gosta de fazer cortesia com o chapéu dos outros.

Em vez de defender o que é importante, defendem aquilo que vai gerar repercussão nas redes sociais.

Um monte de gente que se diz de direita votou aquele aumento vergonhoso com penduricalhos só para fazer média”, diz o deputado, que é veementemente contra o projeto.

“Vou votar contra.

É preciso ter convicção das posições, e não votar porque a opinião pública acha isso ou aquilo.

Se a PEC for aprovada, vamos perder competitividade e aumentar o custo de contratação do Brasil.

Temos que trabalhar na produtividade da força de trabalho”, completou.

Salles defende que, caso a proposta seja aprovada, a direita deve ao menos garantir que os salários sejam reduzidos de forma proporcional à nova jornada.

Rosângela Reis (PL-MG) é uma das parlamentares da oposição que assinaram a PEC de Erika Hilton.

Ela afirma que apoiou a iniciativa, inclusive com a liberação da bancada do PL, por entender que o tema merece ser debatido com responsabilidade e maturidade no parlamento.

“Neste momento, a matéria ainda não conta com relatório, e é justamente agora que precisamos aprofundar o diálogo.

É fundamental construir uma proposta equilibrada, que não imponha custos excessivos ao empreendedor, mas que também assegure avanços reais na qualidade de vida do trabalhador.

Defendo que o Parlamento atue com serenidade, ouvindo todos os setores envolvidos, para que possamos chegar a um ponto de equilíbrio que fortaleça a economia, preserve empregos e promova justiça social.” Rosana Valle (PL-SP) também defende o debate.

Segundo ela, o trabalhador brasileiro anseia por mais qualidade de vida.

“Isso é justo e sou a favor.

O grande desafio para a aprovação é analisar e equilibrar as consequências resultantes do fim da escala 6×1, o que não está claro até o momento.

É preciso que o Congresso Nacional tenha todas as informações e os estudos que garantam que a implantação de um novo modelo de expediente não trará prejuízos para os empregadores que arcam com um volume excessivo de impostos e, principalmente, para os trabalhadores brasileiros que dependem dos empregos”, diz ela.

“Sem responsabilidade, simplesmente reduzir a jornada pode destruir os empregos e gerar ainda mais informalidade.

Melhorar as condições de trabalho exige crescimento e produtividade, não promessa fácil e populista”, reforça.

Aliados de Lula apostam em apoio do Centrão e de parte da direita
Governistas apostam no apoio de parte expressiva do Centrão e em defecções da direita para aprovar a pauta ainda este ano.

Há uma avaliação, inclusive, de que lideranças do bloco de centro já articulam para descolar a iniciativa do governo, evitando que o presidente Lula colha sozinho os frutos eleitorais.

No início do mês, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou a PEC para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), onde será analisada a admissibilidade do texto.

Se aprovada, a matéria seguirá para análise em uma comissão especial.

Leur Lomanto Júnior, presidente da CCJ, defende que o Congresso assuma o protagonismo da pauta e promova um diálogo amplo com a sociedade.

“Essa discussão, pela seriedade e pelo impacto que pode gerar na vida dos trabalhadores e do setor produtivo, deve ser feita ouvindo todos os lados, fazendo um debate suprapartidário.

O protagonismo nessa discussão deve ser do Congresso Nacional.” Pauta dialoga com anseios da população Para especialistas, o fim da escala 6×1 tem potencial para se tornar uma bandeira eleitoral importante para a reeleição de Lula, já que a redução da jornada de trabalho dialoga com anseios manifestados por parcela significativa dos brasileiros em pesquisas recentes.

“Ser contra o fim do 6×1 é como defender ‘promoção’ que só serve para a loja: bonito no anúncio, cruel no caixa.

A oposição está repetindo um mito antigo — ‘se mexer, quebra’ — como se o Brasil fosse feito só de planilha, e não de gente.

Só que a conta real já não fecha: não é só custo de empresa, é custo de família, de saúde, de vida.

A direita deveria disputar o desenho — transição, setor a setor, proteção ao pequeno — em vez de disputar o cansaço.

Porque, no fim, quem parece contra a folga parece contra o futuro”, diz Renato Meirelles, fundador Instituto Locomotiva.

Em entrevista ao Estadão, o cientista político e CEO da Quaest, Felipe Nunes, fez uma reflexão semelhante: “A escala 6×1 e todos os temas relacionados ao mercado de trabalho serão centrais na eleição presidencial de 2026.

O brasileiro está vivendo um processo de exaustão, com trabalho demais, frustração e desejo de uma vida mais flexível, e isso leva a uma mudança cultural, mais do que a uma questão econômica ou política.

Não estamos falando só de emprego e renda, mas de qualidade de vida.

A pesquisa Genial/Quaest de dezembro é a mais recente em que esse tema foi abordado, e mostrou que 72% apoiam o fim da escala 6×1″, diz ele.

Felipe Nunes destaca outros dados da pesquisa Genial/Quaest que mostram o desafio à direita em uma possível posição contra a proposta.

Segundo o levantamento de dezembro, entre os bolsonaristas, 57% são a favor e 39% contra o fim da escala 6×1; na direita não-bolsonarista, são 52% a 43%.

Entre os independentes, a posição é alinhada com o resultado geral: 73% a favor, 22% contra.

“Isso coloca não só para os candidatos à Presidência, mas para todos, uma nova realidade, que precisa ser entendida porque terá impacto forte no resultado das eleições em todos os níveis – inclusive no Legislativo.

Note-se que na pesquisa que fizemos com o Câmara dos Deputados, em junho de 2025, ficou configurado um conflito entre a opinião da população e a dos parlamentares: 70% dos deputados federais são contra o fim da escala 6×1, e isso inclui 55% da base governista.

Esta é uma demonstração importante de como os políticos ainda não perceberam o tamanho do movimento social que está acontecendo", diz ele.


Fonte: estadao

24/02/2026 06:56

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