A esta altura, não há ninguém no País, exceto pela equipe de advogados do empresário Daniel Vorcaro, capaz de afirmar que a liquidação do Banco Master foi uma decisão precipitada.
Revelações trazidas pela imprensa com frequência diária mostram, de um lado, uma instituição financeira que se utilizou de um modelo de negócios insustentável para crescer vertiginosamente em um curto espaço de tempo e, de outro, uma extensa rede de contatos em Brasília que atuou para impedir seu colapso e a ruína de seu dono.
São pertinentes, portanto, as dúvidas sobre se o Banco Central (BC), sobretudo na gestão de Roberto Campos Neto, não teria demorado demais para agir e fechar a instituição financeira.
🌍 Contexto e Relevância
Afinal, como mostrou recente reportagem do Estadão, o BC estava ciente dos problemas de liquidez do Master mais de um ano antes de fechá-lo e seguiu dando oportunidades para que a instituição se ajustasse enquanto o Master mantinha uma gestão escancaradamente temerária.
Em março de 2024, o Banco Central já havia constatado indícios de descasamento entre ativos e passivos do Master e obrigou a instituição a apresentar um plano de contingência para honrar seu cronograma de desembolsos.
Nele, o Master se comprometeu a captar R$ 15 bilhões no mercado, dos quais conseguiu apenas R$ 2 bilhões, menos de 15% do total.
🔍 Detalhes Importantes
Nem por isso houve intervenção.
Em outubro de 2023, uma norma editada pelo BC permitiu que a exposição de bancos a precatórios e direitos creditórios adquiridos até junho daquele ano não fosse contabilizada em balanço, para “evitar efeitos adversos nos mercados e na precificação de operações legítimas firmadas sob o arcabouço normativo anterior”.
O Master já abusava desse tipo de ativo desde 2021, mas jogou no lixo a oportunidade de se ajustar ao ampliar a presença desses ativos em balanço depois que o prazo havia se encerrado.
📌 Pontos Principais
Era o momento de vender ativos ou exigir novos aportes de seus sócios para provar sua solidez.
Mas o Master preferiu continuar a captar recursos por meio da emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas de 140% do CDI e prazo de oito anos, muito acima do praticado pela concorrência, entre 100% e 110% do CDI e vencimento entre dois e cinco anos, aproveitando-se da garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para vender ilusões.
Em novembro de 2024, o Master deixou de recolher depósitos compulsórios, ou seja, começou a dar calote no próprio Banco Central.
Ainda assim, Campos Neto, que deixaria o cargo no fim do mês seguinte, deu novo prazo, até março de 2025, para que o banco encontrasse uma solução definitiva.
É provável que Vorcaro tenha explorado ao máximo brechas de regulação aproveitando-se do fato de que Campos Neto era favorável à ampliação da concorrência no setor financeiro.
E é bem possível que o BC tenha acreditado até o fim em uma solução de mercado para o Master, que só ficou claro que não viria quando o BRB, banco estatal do Distrito Federal, surgiu em seu socorro.
Felizmente, a proposta de compra acabou por ser vetada pelo BC em setembro, dois meses antes da liquidação da instituição.
A sucessão de fatos, contada de maneira cronológica, sugere que houve certa leniência do BC com o banco de Vorcaro, que deu mostras de ser muito pouco confiável ao longo dos anos.
A liquidação de um banco, no entanto, é uma medida extrema, da qual não há volta.
Por isso mesmo, o processo deve ser conduzido de maneira técnica, sem pressa e com respeito ao amplo direito de defesa, para não gerar qualquer questionamento a respeito do acerto da decisão.
Disso, certamente, o BC não poderá ser acusado.
Por outro lado, se o Banco Central tivesse sido mais rígido com o Master desde o início, o escândalo não teria chegado ao nível que chegou nem envolvido autoridades do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.
Fica a lição de que qualquer mercado precisa ser acompanhado com lupa pelos órgãos reguladores desde o nascedouro, para evitar que problemas normais se tornem crises – ou escândalos.
Fonte: estadao
29/01/2026 07:51











