Não vou negar: empreender exige uma dose elevada de autoconfiança.
Quem não acredita na própria ideia raramente tem fôlego para começar algo do zero.
O risco faz parte; é preciso saber conviver com ele.
Até aqui, nada fora do script do empreendedorismo.
O problema começa quando essa confiança deixa de ser instrumento de leitura do risco e passa a funcionar como blindagem contra a realidade.
Casos recentes do mercado financeiro, como o do Banco Master, reacendem um debate que vai além de estruturas de capital ou de modelos de governança.
💥 Como estadao Afeta o Cotidiano
Eles expõem uma dinâmica perigosa no mundo dos negócios: o ponto em que a autoconfiança se transforma em certeza absoluta.
E a certeza absoluta vira incapacidade de escutar sinais, sobretudo os contrários.
Esse “dia” não acontece de súbito.
Tampouco aparece gritando nos primeiros balanços.
Ele vai se instalando, silenciosamente.
Quando crescer rápido vira prova de competência, quando alertas passam a ser tratados como ruído, quando discordar começa a soar como falta de lealdade.
Eu acredito que não é o erro que derruba empresas.
É o ponto em que o contraditório se esvai.
Há momentos em que o noticiário passa a ser advertência.
Não interessa aqui julgar culpados sobre o que aconteceu com o Banco Master; isso cabe às instâncias formais.
O que interessa é observar o comportamento nos bastidores do empreendedorismo brasileiro e que, quando ganha escala, vira crise pública.
O primeiro erro é confundir coragem com negação.
O empreendedor que se recusa a enxergar limites chama isso de ousadia.
A história econômica mostra o contrário.
Dos bancos italianos do Renascimento às bolhas recentes do Vale do Silício, toda ruína se instala se alguém decide ignorar sinais evidentes em nome de uma narrativa heroica.
Há uma diferença essencial entre risco e autoengano.
Risco é cálculo.
Autoengano é retórica interna.
O empreendedor que escolhe acreditar apenas na própria versão opera fora da realidade, ainda que continue falando em crescimento, visão e futuro.
O segundo desvio é tratar governança como ornamento.
📊 Informação Complementar
Compliance não é burocracia.
É linguagem moral.
Ao enxergar controles como entraves, e não como estruturas de sustentação, o negócio vai de empresa a personagem.
Aristóteles já alertava que o excesso de confiança gera hybris, a ilusão de superioridade que faz líderes confundirem poder com invulnerabilidade.
E toda hybris pede uma queda para restaurar a ordem.
O caso Master também revela o empreendedor que se apaixona pela própria inteligência.
Aquele que acredita que sempre saberá sair antes, explicar depois, negociar no limite.
Mercados não perdoam vaidade disfarçada de genialidade.
Eles cobram.
Encerro com o erro mais sofisticado e mais comum: a crença de que reputação é acessório, algo que se resolve com discurso ou tempo.
Reputação é ativo financeiro invisível.
Quando se rompe, o caixa pode até resistir por um período.
A confiança, não.
O empreendedor que sobreviverá à próxima década não será o mais agressivo nem o mais midiático.
Será aquele que entende que prudência não é medo.
É inteligência aplicada ao longo prazo.
Fonte: estadao
28/01/2026 10:22











