Pela segunda vez consecutiva a maquiadora Priscila da Gama Macedo, de 34 anos, optou pelo usado na hora de trocar de carro.
Em 2024 comprou um Citroën C3, com câmbio manual e 14 anos de idade.
No ano passado, trocou novamente de carro.
Decidiu também pelo usado, porém um pouco mais novo.
Comprou um Peugeot 208, ano 2015, com câmbio automático e 60 mil quilômetros rodados.
Além de ser uma motorista “novata” e, por isso, não querer se arriscar na compra de um carro zero, o fator decisivo para escolher novamente um usado foi o preço.
“Cheguei a ver um carro zero, mas ele não se encaixava no meu orçamento”, conta.
Pelo Peugeot, ela vai desembolsar ao todo, incluindo os juros, R$ 80 mil, parcelados em 48 vezes.
A renda de Priscila não comporta a compra de um carro zero e também de outras despesas inerentes a um veículo novo, como seguro voluntário e Imposto sobre Veículos Automotores (IPVA), consideradas na hora de optar pelo usado.
🌍 Contexto e Relevância
A maquiadora não está sozinha nessa escolha.
No ano passado, a venda de carro usado bateu recorde histórico.
Foram comercializados 18,5 milhões de veículos no País, com crescimento de 17,3% em relação a 2024.
Foi o maior volume da série iniciada em 2012, segundo a Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto).
No mesmo período, a venda de veículos zero-quilômetro avançou 2,1% ante 2025 e frustrou a expectativa da indústria automobilística de crescer 6,3%, depois revista para 5%, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
Em 2025, foram vendidos no mercado interno 2,69 milhões de veículos zero-quilômetro.
“O preço do carro novo ficou fora do alcance financeiro da maior parte da população brasileira”, diz Everton Fernandes, presidente da Fenauto.
De acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE, a medida oficial da inflação, o carro novo ficou, em média, 3,05% mais caro em 2025, enquanto o automóvel usado, 2,26% mais barato.
Apesar de não dispor de números, Fernandes ressalta que a valorização de preço do usado foi muito baixa ou beirou a estabilidade em 2025 por causa da maior oferta de veículos.
E isso favoreceu as vendas.
No ano passado, 600 mil carros de locadoras foram despejados no mercado de usados.
As locadoras conseguiram finalmente renovar a frota, após um período mais restritivo na oferta de novos que houve depois da pandemia, por falta de componentes dos veículos.
Na avaliação do presidente da Fenauto, o preço foi o fator mais importante para turbinar a venda de usado em 2025.
Já Carlos Eduardo Lopes, economista do banco BV, líder no financiamento de veículos usados, atribui o bom desempenho do mercado de usados em 2025 à conjuntura macroeconômica.
As condições de mercado de trabalho — com o desemprego na mínima histórica, crescimento da renda —, associadas ao crédito em expansão explicam muito mais o forte crescimento da venda de usados do que o diferencial de preços entre um carro novo e outro de segunda mão.
“As taxas de aprovação de crédito aumentam muito quando você tem um bom desempenho da renda dos consumidores”, diz Lopes.
Estatísticas monetárias e de crédito do Banco Central mostram que o saldo de crédito livre para compra de veículos encerrou o ano de 2025 com crescimento real, descontada a inflação, de mais de 9%.
Esse resultado foi obtido mesmo com a taxa básica de juros em 15% ao ano, maior nível em 20 anos.
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Juliana Inhasz, professora de Economia do Insper, tem uma avaliação do mercado de usados semelhante à do economista do BV.
O aumento da renda e a forte inserção de pessoas no mercado de trabalho estão, segundo ela, levando as famílias de renda média-baixa a adquirir carro usado.
“Querendo ou não, é o que cabe no bolso.”
No universo de usados, os carros eletrificados representam uma fatia ainda insignificante, porém crescente.
No ano passado, somaram 146 mil veículos, ante 70 mil em 2024.
‘Velhinhos’
Dos 18,5 milhões de carros usados vendidos no ano passado, a maior fatia foi de “velhinhos”.
Veículos com mais de 13 anos responderam por 38% do total.
“É o carro que a maior parte da população brasileira consegue comprar porque os preços são mais acessíveis”, diz o presidente da Fenauto.
Já a parcela de carros “maduros”, com 9 a 12 anos de idade, como o comprado pela maquiadora Priscila, respondeu por quase 20%.
Hoje a maior parte da frota de usados do País tem mais de dez anos de idade.
Isso tem desdobramentos sobre as questões ambientais, uma vez que veículos mais novos e tecnologicamente mais avançados são feitos teoricamente para poluir menos o meio ambiente.
“Do ponto de vista estritamente ambiental, realmente esses carros poluem mais, soltam mais resíduos, então são piores”, diz Juliana, do Insper.
Ela pondera que, quando se avalia a sustentabilidade de forma mais ampla, não apenas o E da sigla ESG (Ambiental, Social e Governança), existe algum benefício social no mercado de veículos de segunda mão.
📊 Informação Complementar
É que reutiliza um bem.
“Há uma diminuição do impacto no ‘S’ (sustentabilidade) do ‘ESG’ por conta de não estar simplesmente descartando um bem que foi usado.
É muito difícil cravar o que é economicamente e socialmente melhor.
Existem ganhos e perdas", diz.
Efeitos no PIB
Não é à toa que a indústria automobilística é um termômetro importante da economia.
Por ter uma cadeia longa de produção, que envolve várias outras indústrias de componentes, partes e peças, quando as vendas de carros zero crescem no varejo, a produção avança na indústria e engrossa a geração de riqueza do País, o Produto Interno Bruto (PIB).
Já quando o mercado de carros usados cresce, não há agregação no PIB do ano, porque o veículo já foi fabricado em períodos anteriores.
No entanto, na opinião de Juliana, o efeito do carro usado não é desprezível na geração de riqueza.
Isso porque a sua comercialização puxa a demanda de outros componentes, peças e partes, que vão impulsionar a produção de outras indústrias, bem como a prestação de serviços de reparo.
“Se as pessoas só comprassem carros novos, isso geraria um aumento, pelo menos pontualmente, maior na produção.
Mas não é desprezível o impulso que a venda do usado dá ao PIB.
Não só no curto prazo, mas no médio prazo, acho que é um efeito consideravelmente muito bom”, diz a professora do Insper.
Consertos e peças de reposição No ano passado, por exemplo, o volume de serviços prestados pela oficinas mecânicas e de reparos de veículos cresceu entre 8% e 10% em relação ao ano anterior e ficou bem acima da média de 2022 a 2024, que havia sido de 4,5%, segundo Antonio Fiola, presidente do Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios de São Paulo (Sindirepa-SP).
Entidade reúne 17 mil oficinas no Estado de São Paulo e 98 mil no Brasil.
“O movimento surpreendeu”, diz Fiola.
Ele pondera que o volume de serviço cresceu acima do esperado, mas o valor médio dos consertos efetuados caiu em 2025.
E o faturamento das oficinas se manteve.
Dados do IPCA mostram que os preços do conserto do automóvel subiram, em média, 6,94% no ano passado; e da pintura de veículos, 7,71%.
Em ambos os casos, o porcentual superou a inflação geral do período (4,26%).
Fiola argumenta que as despesas dos prestadores de serviços com luz, água, telefone, aluguel, por exemplo, subiram e neutralizaram os ganhos que poderiam ter ocorrido em razão do movimento maior e da correção de preços.
Além disso, o tíquete médio dos serviços foi menor.
O aquecimento do mercado de usados também puxou as vendas de autopeças e acessórios para veículos.
A multinacional AutoZone, uma das maiores revendas de peças e componentes, com 150 lojas no Brasil, por exemplo, registrou alta de 37% nas vendas de autopeças em 2025 na comparação com 2024.
No caso dos acessórios, o aumento foi ainda maior, de 47%, na mesma base de comparação.
“Estamos vendo o poder desse mercado de usados, com as pessoas valorizando a manutenção do automóvel”, diz o diretor de Marketing e Experiência Digital da AutoZone Brasil, Gustavo Aguinaga de Moraes.
O Sincopeças-SP, que reúne 18 mil revendas de peças no Estado de São Paulo, ainda não fechou os números de 2025.
Mas a entidade informa que o movimento de vendas no varejo tem sido intenso e que o mercado de reposição e reparação acompanha o aumento de vendas de veículos usados.
Fonte: estadao
21/01/2026 09:11











